Publicidade

Posts com a Tag Vasco

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013 Sem categoria | 15:32

Deixai brigar

Compartilhe: Twitter
Eles tem direito de fazer isso? Eu acho que sim. Mas não nesse lugar, nem desse jeito. (Foto: Geraldo Bubniak/Fotoarena/Folhapress)

Eles tem direito de fazer isso? Eu acho que sim. Mas não nesse lugar, nem desse jeito. (Foto: Geraldo Bubniak/Fotoarena/Folhapress)

Sobre os eventos de ontem em Joinville.

Sou um liberal. Acredito na liberdade e na responsabilidade individuais. Não acredito em controle superior – mas sim na autorregulação que parte das pessoas. Vejo a lei como um acordo que permite a todos os indivíduos cederem um pouco dos seus desejos, encontrarem um território em comum, celebrarem um acordo, e assim viverem juntos em sociedade. Não gosto de Estado grande nem de governo invasivo, que se mete na vida dos cidadãos – seja por meio de assistencialismo ou de totalitarismo. O começo e o fim de tudo é a própria sociedade civil. O condomínio depende dos seus condôminos – e não nos síndicos que elegemos a cada quatro anos para administrá-lo.

Isto posto, quero dizer o seguinte: não há força no mundo que impeça duas pessoas de brigar. O mesmo vale para dois grupos. É como o suicídio – não adianta proibi-lo. Não há força no mundo que impeça um indivíduo de tirar a própria vida, se ele optar por esse caminho. Vale o mesmo para o uso abusivo de drogas, para a obesidade mórbida, para a anorexia (que é tão mórbida quanto), para práticas sexuais extremas. Vale o mesmo para qualquer decisão soberana do indivíduo sobre si mesmo – por mais torta que ela pareça aos demais – desde que ela não implique prejuízo indesejado aos demais. Você pode incentivar, ou desincentivar uma coisa ou outra. Pode moralizar a questão o quanto quiser – pela via da religião, inclusive. Mas é tolo imaginar que possa proibir alguém de fazer o que quiser consigo mesmo.

Ontem, no estádio em Joinville, havia infindáveis metros entre as torcidas. Quem quis pular a cerca ir lá do outro lado brigar teve que correr uma meia maratona para fazê-lo. Ninguém que se envolveu no pau ontem não queria estar lá. Um cordão de isolamento mais ostensivo feito por policiais resolveria o problema? Talvez tivesse impedido, por coação, que tantos se tenham jogado à batalha campal. (Não teria impedido de modo algum o desejo dessas pessoas de fazê-lo, em algum momento, em algum lugar, sem a presença da polícia.) Ou talvez mais policiais com cassetetes e balas de borracha tornassem tudo ainda mais tétrico e sanguinolento. Eis o ponto: a integridade daqueles vândalos pertencia e dependia deles próprios, e não dos policiais. Os escudos e as bombas de efeitos moral da polícia deveriam proteger quem não queria se envolver – não tinham a menor obrigação de proteger os bárbaros deles mesmos. Os bárbaros, de ambos os lados, estavam ali de vontade própria e de acordo entre si: “vamos brigar”.

O papel do Estado e da polícia diante de dois indivíduos, ou de dois grupos, que desejam se medir na brutalidade e na força física, a meu ver, é, sobretudo, garantir que eles não atinjam, com a sua desinteligência, nenhuma pessoa ou grupo que não deseje participar disso. Se o governo é o nosso síndico, se a sua principal função é regular o funcionamento de indivíduos livres, talvez o mais racional fosse organizar esses confrontos – ao invés de tentar bani-los. Você quer brigar? Combine dia, hora e local com quem também queira sair na mão e seja feliz.

Atente apenas para o que você não pode fazer – agredir quem não concordou em participar do confronto. Ou estragar a diversão alheia – num estádio de futebol, num show ou na saída de uma festa. Briguem, se batam, mas noutro lugar, num lugar próprio para isso, que envolva somente os participantes, e não num estádio cheio de famílias, de crianças, de velhos, de muheres, de gente que só queria assistir a um jogo, tomar um picolé, comer uma pipoca doce de saco rosa e torcer para o seu time.

Saiba que eu não quero ver você. Eu não quero cruzar com você. Eu não quero ter que me defender de você. Mas se você encontrar um parceiro de selvageria que tope ser seu adversário, sejam felizes. Marquem pela internet. E combinem algumas regras mínimas, para não haver dúvida sobre a justiça e a lisura do evento, e para que ninguém possa lhes prender ou processar por rasgarem a lei.

Algumas sugestões:

1. Um contra um, não um contra dez. Para outro do seu time assumir, você tem que sair. Ou então em grupos pré combinados: dois contra dois, três contra três, cinco contra cinco. A baixa de um dos participantes implicará na entrada imediata de outro, garantindo sempre a igualdade numérica entre os adversários.
2. Não pode bater em quem estiver caído. Três apoios no chão, a briga será parada até que um substituto entre na rinha.
3. A briga tem que ser na mão e não com uso de utensílios como barras de ferro ou pedaços de pau. Quem é valente briga na mão livre, o resto é coisa de covarde.
4. A briga só está aberta a maiores de 21 anos.
5. Só pode participar quem tiver algum tipo de seguro saúde. Porque, em brigas, as pessoas se machucam. Não há vítimas nem vilões – apenas contendores.
6. A briga termina por tempo. Trinta minutos. Uma hora. Não há vencedores ou perdedores oficiais. Cada um saberá o quanto bateu e o quanto apanhou.

A função da polícia será regular esse confronto e garantir que ele não saia do perímetro pré combinado. E que não implique danos a terceiros e nem ao patrimônio público ou privado. Assim, antes – ou depois – de todo clássico, torcidas rivais teriam seu momento para acertar as contas. Flamengo e Vasco. (Ou mesmo um insuspeito Atlético PR e Vasco.) Corinthians e São Paulo. Grêmio e Inter. Futebol a quem é de futebol – em estádios livres da violência. Briga para quem é de briga – noutro lugar, somente entre quem comungar desse interesse.

Autor: Tags: , , , , , , , ,