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segunda-feira, 24 de março de 2014 Sem categoria | 15:31

A História de O e a busca pelo erotismo perfeito

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Anne Cécile Desclos, assinando como Pauline Réage, escandalizou Paris em 1954 com A História de O - um clássico da literatura erótica

Anne Cécile Desclos, assinando como Pauline Réage, escandalizou Paris em 1954 com A História de O – um clássico da literatura erótica

Acabo de ler “Story of O”, de Pauline Réage, um clássico da literatura erótica – estou passando uma lista em revista nesse campo. Gosto de literatura e de erotismo. Infelizmente, essa seara é como filme de terror – você assiste dez obras sofríveis até achar uma que valha a pena. Há uma edição de “A História de O” em português, em catálogo, da Ediouro. E o livro já foi publicado no país também pela Brasiliense.

“A História de O” escandalizou a França ao ser publicada, em 1954. A pessoa por trás do pseudônimo “Pauline Réage” só se revelou 40 anos depois da obra vir à tona, numa entrevista à revista americana The New Yorker: tratava-se de Anne Cécile Desclos, que escreveu também uma continuaçao de “A História de O”, em 1969, “Return to the Château”, obra que aparentemente não existe em português – em espanhol traduziram como “Retorno a Roissy”.

Anne Cécile, nascida em 1907, tinha 47 anos quando criou O. Ela morreria em 1998, quatro anos depois de revelar sua identidade ao mundo, aos 91 anos. Anne Cécile foi escritora, tradutora, editora e jornalista, tendo chegado a trabalhar com André Gide. Anne contou ter escrito “A História de O” em resposta ao fato de Jean Paulhan, seu amante e seu chefe na editora Gallimard, um admirador da obra do Marquês de Sade, haver dito que “mulheres não são capazes de escrever romances eróticos”.

Ainda não li “Return to the Chateau”. Não resistirei a fazê-lo, certamente. E pretendo checar a leitura gráfica que Guido Crepax fez da obra de “A História de O”.

Também há dois filmes baseados na obra de Anne Cécile: A História de O, 1975, de Just Jaecking, e “A História de O – 2”, 1984, de Eric Rochat, que também produziu uma série de TV, em 1992, com um elenco cheio de brasileiros, de Nelson Freitas e Paula Burlamaqui.

Em minhas incursões pela literatura erótica, busco obras que me inspirem. É mais ou menos como no mundo (muito mais vasto e segmentado) da pornografia – você tem que achar a frequência que faz sentido para você. Tenho tido mais facilidade para montar um mural do meu agrado na pornografia digital do que propriamente na literatura. As obras clássicas – de “Um Romance Sentimental”, de Alain Robbe-Grillet, a “História do Olho”, de George Bataille – se parecem. E nenhuma delas se parece comigo.

Colo aqui as minhas impressões da leitura do livro de Anne Cécile. Se você também gosta de navegar por essas águas, talvez algumas dessas notas possam lhe ser úteis. O que é erótico para uns pode não ter a menor graça para outros – ao mesmo tempo que escandaliza outras pessoas acolá. E se em sua busca você achar coisas interessantes por aí, é favor me avisar. (Ah, sim. Pode avançar tranquilo, não há spoilers abaixo.)

1. A mulher é sempre um objeto dominado. Do ponto de vista feminino, um objeto nascido para ser dominado. Do ponto de vista masculino, um objeto feito para a dominação. Houve por anos um debate sobre quem estaria por trás do pseudônimo “Pauline Réage”. Talvez fosse um homem. O livro de Anne Cécile é conduzido por um ponto de vista muito masculino sobre a sexualidade – inclusive a feminina. É como se a autora olhasse a si mesma, e ao jogo erótico, não do ponto de vista dela, e nem mesmo do ponto de vista masculino (a sua visão não me conecta, por exemplo), mas sim do ponto de vista do que ela imaginava que um homem pensaria, sentiria e esperaria de um livro erótico. Não é erotismo feminino – mas um livro de erotismo falocêntrico escrito por uma mulher. (A revelação de que ela o escreveu como uma resposta ao desafio de seu amante, um fã de Marques de Sade, pode ajudar a entender isso. O resto é só o machismo e o sexismo misógino tão comumente adotados com afinco pelas mulheres.)

2. Tive a impressão, ao longo da leitura, que as coisas que iam se sucedendo com O representavam, metaforicamente, o sonho de todo macho que começava ali, no pós Guerra, a perder para as mulheres o poder absoluto que detinha na sociedade. A História de O é uma nostalgia expandida da mulher escrava – imagem que, aparentemente, não passava só pela fantasia dos homens conservadores, mas também das mulheres conservadoras: a volta a uma relação feudal e de posse entre os sexos.

3. Boa parte dos clássicos de literatura erótica que tenho lido passam por uma transgressão aos bons costumes de uma sociedade tradicional. Esse é o parâmetro do qual se parte sempre, inclusive em tempos mais recentes, com esse “50 Tons de Cinza”, que celebra bobagens que só podem celebrar leitores que forem cheios de grilos na cama. A suposta transgressão, quando é apenas um espelho invertido da caretice e da convenção, não transgride nada. Ao contrário – celebra a própria canhestrice que tenta disfarçar com cores opostas. Em suma: gente reprimida escrevendo fantasias fundadas na autorrepressão costumam render narrativas muito chatas e óbvias e previsíveis se você for só um pouquinho mais liberado. É quando o erótico fica bobo, por ser ingênuo. E quando a viagem pseudolibertária revela na primeira página o arcabouço conservador do qual não consegue se livrar. O homem rico, poderoso, charmoso e misterioso versus a moça ingênua de “50 tons” me fizeram parar na primeira página – o argumento não fica em nada a dever aos antigos livretos de coleções vendidas em banca, como Bianca e Sabrina. Na História de O, o boquete é frequentemente visto como uma humilhação. (Talvez para a minha avó, que em 1954 tinha 29 anos e era uma respeitável mãe de família num rincão agrário do Rio Grande do Sul. Mas não para mim.) A minha perspectiva sexual é outra. Bem, Anne Cécile tem o desconto da época em que viveu e a moral que enfrentou – inclusive dentro de si. Já E.L. James, a autora de “50 Tons”, não tem nenhuma desculpa – ela é só careta mesmo.

4. Sob a perspectiva de O, a melhor – e a pior – coisa que pode acontecer a uma mulher é ser amada por um homem. Tornar-se seu objeto de adoração – e de imolação. Ao mesmo tempo, esse é o grande objetivo feminino, segundo o livro: ser escolhida por um homem, viver à sombra do seu amor e do seu jugo. Isso justifica tudo. Como se as mulheres só encontrassem seu propósito e só estivessem plenas ao servirem a um macho. E mais realizadas elas serão quanto mais sem fronteiras for essa entrega. Na outra face dessa mesma moeda, é como se o amor masculino representasse sofrimento para as mulheres, como se a paixão dos homens fosse tanto mais sincera quanto mais violenta. Os caras que torturam O, no fundo, a amam, a idolatram. Tirar-lhe os pedaços significa adoração. Significa que a escolheram. Para O, o pior cenário é não depender de um homem. É não ter um homem a quem entregar a sua guarda, nem por quem ser violada. Ser desejada é tudo – mesmo quando o desejo lhe é corrosivo. Ou tanto mais quando ele é assim. “Ela não era mais livre? Sim! Graças a deus ela não era mas livre”, revela Anne Cécile sobre o sentimento de O diante do progressivo desmanche de si mesma diante do jugo de seu amante. E esse jugo é passado de uma mulher a outra. Não como maldição – mas como privilégio. A vida das mulheres não ganha sentido até que encontrem um dono para lhes escalavrar.

5. A todas essas O poderia simplesmente ir embora. Em determinado momento é dito a ela que enquanto ela ficar ela terá que se submeter a tudo, mas que ela não é obrigada a ficar. A incrível dependência emocional que ela nutre em relação a seu amante, ou em relação a qualquer homem que lhe der atenção, mesmo que a custa da sua integridade, é notável. (E faz pensar nos casos de violência doméstica, que pululam por aí, mundo afora, nos dias que correm, em que a mulher é a primeira a defender seu agressor, garantindo as condições para que a agressão continue.) René, seu amante, pede a sua permissão para lhe açoitar – quando sabe que a resposta será positiva. É um gesto de extrema covardia, do lado dele. E de extrema submissão, do lado dela. Trata-se do cúmulo do exercício de poder do mestre sobre o escravo – eu lhe ofereço a liberdade quando sei que você não vai embora.

6. Por que ela se submete parece ser a pergunta metafórica do livro: por que as mulheres se submetem a esse jogo de mestre/escravo? Por amor a um homem. “Eu te amo, faça o que quiser comigo mas não me deixe, pelo amor de deus não me deixe”, diz O. Ou, se extrapolarmos a questão de gênero: por que qualquer um de nós se submete? Talvez a obra pudesse simplesmente ser lida como um exercício sadomasoquista que agrada aos sádicos e aos masoquistas. Mas por que, entre os clássicos da literatura erótica, o sádico, o que dispõe do outro, o que detem o poder, é sempre o homem? Por que a mulher é sempre a criatura humilhada, despojada de sua dignidade, destroçada? Por que é sempre que ela que sente prazer com isso, com a autoaniquilação, enquanto o prazer masculino é sempre mais digno e confortável?

7. Será que o arquétipo sexual feminino é afinal definido pela submissão de ter sido historicamente o gênero mais fraco fisicamente? O gênero que com mais frequência tem que arcar com o risco sempre iminente da dor em uma penetração? Ou, ao contrário, será que as mulheres sempre estejam nessa posição por sua suposta maior resistência à dor, como o sexo destinado a parir outra pessoa através da sua própria genitália? Talvez homens e mulheres se orientem sexualmente, em algum nível, a partir desse padrão – os homens seriam igualmente escravos da tradição neandertal impressa em seu sistema límbico, de espalharem seus genes por aí de modo muitas vezes violento. Por esse raciocínio chegamos à ideia de uma dominação hormonal dos gêneros, cabendo sempre às mulheres a regulação de sexo – como a festa se dá sempre dentro dela, ela só deixaria entrar quem ela quisesse, quando ela quisesse, do modo que ela quisesse. Para o homem, historicamente, romper (literalmente) com essa tradição, e passar a regular o jogo sexual, tendo o que ele quer na hora em que ele desejar, é a obtenção do poder máximo. (A tradição é que o homem domine o jogo sexual, mas não que o regule.) Do ponto de vista feminino, quando a mulher entrega esse timão ao homem, não haveria presente maior, não haveria maior entrega nem maior prova de amor.

8. René, o amante de O, por quem ela é apaixonada, lhe doa a vários outros homens. E lhe concede a Sir Stephen, parceiro de René, que tem ascendência sobre ele – entre os dois há uma cumplicidade sexual cujos limites não ficam claros, mas que parecem ser bem elásticos. O se sente traída. Mas ela aceita ser dada de um homem a outro, como uma metáfora do aceite, pelas mulheres que dependem de seus homens, da traição a que são submetidas. Aceitar que René a renegue, a recuse e a humilhe é uma prova do amor que ela sente por ele. Submeter-se a outro homem indicado por seu homem é submeter-se a ele, e declarar – ou provar – seu amor a ele. Quanto maior a tortura, maior a chance de se provar como amante e como mulher. Eis a lógica de O – ela é uma mulher apaixonada e faz tudo por amor.

9. O experimenta o suposto prazer ser uma puta. Sim, a velha dicotomia entre santa e puta. Um negócio mais velho que Freud. E como toda mulher tem que ser santa, quem experimenta o sexo, gostando ou não, é uma puta. Para uma puta voltar a ser santa, é preciso trilhar o caminho da expiação. Daí, também, a tortura ser bem-vinda. O chicote e os ferros a purificam. O mesmo membro que a lastima a absolve. A luxúria da carne e a mortificação da carne, no mesmo gesto, que geram a puta, isolam a puta e fazem brotar, por entre filetes de sangue, a santa. Para brincar um pouco mais na poeira do freudismo (que sem dúvida deve ter influenciado muito Anne Cécile na década de 50): mais eros e menos thanatos, por favor.

10. O livro é centrado na mulher. E essa proeminência do feminino é paga com sangue. O homens não disputam esse proscênio, mas esfolam quem é colocado lá. Tudo gira em torno do gineceu – e por isso mesmo ele é açoitado sem dó pelo androceu a quem ele serve. Outro aspecto dessa coreografia que joga as mulheres no centro das atenções, como objetos a serem desfrutados, apenas para lhes tirar o couro, é a sua colocação como um anteparo necessário – mas ao mesmo tempo odioso – entre dois homens, funcionando como um amortecedor para o homoerotismo, sempre disfarçado de camaradagem e de cumplicidade de gênero, entre dois homens. Confira na próxima cena de dupla penetração, ou de ménage a trois de uma moça com dois homens, ou de gang bang, com a qual você topar – a cena tem sempre um subtexto de sexo entre homens, mediado fisicamente por um corpo feminino. O foco do interesse do caras é muito mais o relacionamento entre eles do que um interesse genuíno no sexo oposto. Quem gosta de mulher costuma tratar bem e quer exclusividade. O sexo entre homens, intermediado por uma mulher, é o máximo de intimidade e de intercurso que dois caras conseguem estabelecer entre si sem sair do espectro da heterossexualidade.

11. E de novo o sexo anal assume conotação de jugo, de controle, de humilhação e de um imposição de dor e de tortura de um amante a outro. Pier Paolo Pasolini já falava disso: o coito anal nunca é visto como um ato de amor, um gesto de carinho, uma brincadeira sexual legítima ou como um interesse ou uma forma de prazer para quem o recebe – ele é sempre representado de modo fascista e autoritário, como um domínio truculento de um parceiro pelo outro. Será que em 2014 isso é diferente? Lembro de uma representação um pouco diferente em Crash, filme de 1994, de David Cronenberg – mas mesmo ali o prazer da moça partia do seu gosto pela dor e não como uma carícia sexual delicada do seu parceiro.

12. A única expressão de amor próprio de O é se sentir atraída por outras mulheres – elas são a sua imagem, ela se vê nelas. A homossexualidade de O é um exercício de autoestima.

13. Ao final, O contempla a escravidão ou a morte. A liberdade não é uma escolha para ela. Para ela, é pertencer ou perecer. (Pensando bem, 1954 não envelheceu tanto assim…)

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