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segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014 Sem categoria | 09:13

O perfeito idiota de classe média brasileiro – parte 2

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A pobreza no Brasil não é uma circunstância, uma situação conjuntural a que todos estamos expostos - é uma condição estrutural que rotula e afasta milhões de pessoas, consideradas para sempre subcidadãs. O PICMB morre de medo disso. E adora rir disso.

A pobreza no Brasil não é uma circunstância, uma situação conjuntural a que todos estamos expostos – é uma condição estrutural que rotula e afasta milhões de pessoas, consideradas para sempre subcidadãs. O PICMB morre de medo disso. E adora rir disso.

O texto de maior sucesso nos cinco anos de vida do Manual viralizou semana passada – O perfeito idiota de classe média brasileiro.

O número de leituras foi de pouco mais de 1 000 (um belo número para os padrões do Manual) para quase 9 000 no espaço de alguns dias. E continua subindo. Nada mal para um blog independente. O detalhe é que essa é a segunda curva de um texto que foi publicado originalmente em 9 dezembro. Impossível precisar o que detonou essa ignição ocorrida de repente, dois meses depois. Coisas da internet.

Acho que o texto tocou num ponto importante – um padrão de comportamento que transforma muitos de nós em seres com um cartão de crédito no bolso e nenhuma ideia na cabeça. Aterrissei essa atitude na classe média – porque é ali, nesse terreno largo, em que o poder aquisitivo nem sempre é construído par e passo com a instrução, que ela pode ser encontrada com mais clareza e fartura. Mas é claro que esse comportamento acomete pessoas em outras camadas sociais. Ele pode ser visto na aspiração dos pobres e também no descaso dos ricos brasileiros.

O PICMB se traduz numa pessoa mimada, indolente, incivilizada, pouco cidadã. Que se escuda atrás de marcas e de produtos caros – porque, de resto, tem pouca coisa a oferecer. É um praticante e uma vítima da reificação – o processo de coisificação das pessoas, dos sentimentos, dos relacionamentos. O PICMB é brega no uso do dinheiro. E cafona no que pensa e no que diz – porque não se preparou para exercer da melhor maneira as suas conquistas financeiras. Acha que não precisa fazê-lo. Ele está interessado em ter, não em ser. Ou: ele só considera que é na medida em que tem.

Há outros dois aspectos que ajudam bem a caracterizar o PICMB – que, perceba, é muito mais uma função do que uma estrutura, muito mais um software do que um hardware, muito mais um sistema ético do que um determinado grupo de pessoas.

O primeiro deles: o medo bizarro da classe média brasileira de parecer pobre.

E o modo mais direto de não parecer pobre, de afirmar ou de fingir riqueza, é pagar caro. A visão que nós temos de um cara rico, no Brasil, não é a de um cara que trabalha e que economiza – mas de alguém opulento e perdulário. Por isso os preços aumentam à nossa volta – e o PICMB acha bonito pagar por eles. Pagar menos é erodir valor. Pagar caro, ao contrário, deixa todo mundo ver que você não é pobre. O tipo de consumismo que nutrimos entre nós tem esse viés: as coisas tem que ser caras. O uso grosseiro de marcas famosas vem daí – elas não são nada além de uma sinalização pouco sutil para todos os outros de que você tem dinheiro para torrar naquilo. (Mesmo os produtos comprados em liquidações, nos outlets de Orlando, que lotamos com nossa voracidade vazia, não se despem dessa função, ao gritarem: “eu estive em Orlando, você não”. A exclusividade é uma forma de segregação social e econômica que nós adoramos praticar.) Não raro, o único valor de um produto é esse: ser caro. Ele nem é tão legal, mas você usa porque todo mundo sabe que ele custa os olhos da cara. Ninguém acha que você é um tremendo pato agindo desse jeito – todo mundo acha você que é bacana. Nós devotamos ao PICMB uma admiração (sempre banhada em veneno) que lhe faz vibrar por dentro.

O PICMB acha que reclamar dos preços, ou discuti-los, ou pechinchar, ou procurar pelas melhores ofertas, é coisa de pobre. E nós temos horror a isso – “pobrismo”. Trata-se, obviamente, de um trauma terceiro-mundista, de quem foi pobre por muito tempo, e de quem ainda convive muito de perto com a pobreza. Escandinavos, holandeses, belgas e suíços, por exemplo, não tem essa dicotomia instalada dentro de si. Por isso se dão ao luxo de dar mais valor ao seu dinheiro e de não enxergar sentido na ostentação. Nós, ao contrário, respiramos essa dicotomia. Nosso jeito de lidar com ela é ampliar, entre nós, o contraste entre quem tem e quem não tem, ao invés de tentar incluir todo mundo para que mais pessoas possam ter. Vivemos para mostrar. Para agredir o outro com aquilo que logramos adquirir. Por isso, para o PICMB, a regra é comprar sem olhar. Essa irresponsabilidade com o dinheiro, essa falta de amor à economia, nos define. Os americanos, para não irmos muito longe, respeitam muito cada dólar que tem na carteira. Por isso o dólar é valorizado. A valorização cambial de uma moeda começa na valorização que os usuários fazem dela individualmente, dentro do seu próprio bolso. Como os americanos, nós elegemos o dinheiro como um deus – só que um deus que precisa ser imolado diariamente no fio do cartão de crédito internacional com limite estourado.

Esse pudor de parecer mesquinho é o que permite que os estacionamentos e as sobremesas, para citar dois preços que inflacionaram barbaramente nos últimos anos, aumentem descaradamente numa cidade como São Paulo. A gente paga. Então a primeira hora do valet em qualquer lugar, de 8 ou 10 reais, passou, num par de anos, para 20 ou 25 reais. Porque a gente paga. Por isso um taça minúscula de qualquer coisa doce após uma refeição passou de 10 ou 12 reais, para 25 reais em qualquer restaurante bem posicionado na cidade. Porque a gente paga. A gente não reclama – porque regatear preço é coisa de pobre. Por isso o governo aumenta seus gastos e a nossa carga tributária todo ano e tudo bem: a gente continua pagando. As tungadas vem de todo lugar – do IPTU ao serviço de controle da emissão de gases do seu carro (uma piada de humor sombrio aplicada aos paulistanos todo ano). A gente paga. A gente assente. Enquanto isso nos separar daquelas pessoas que não podem pagar, continuaremos pagando – porque isso nos faz sentir bem.

O outro aspecto que ajuda a caracterizar o comportamento do PICMB é um individualismo atroz, que embute um total descaso pelo outro e que obstaculiza a construção de uma Nação com N maiúsculo sobre esse país com p minúsculo.

Trata-se de tentar sempre garantir privilégios individuais imediatos ao invés de crescer como sociedade a médio prazo. A magistrada que bloqueou recentemente, no bairro do Humaitá, no Rio, um trecho de calçada em frente à sua casa, para poder manobrar com o seu carro, é a cara desse Brasil. Somos um país de posseiros. O país da apropriação indébita. Ao invés da soma dos interesses privados gerarem o bem público – afinal, é do interesse comum, de cada um de nós, que seja bom para todos –, a gente parte para o cada um por si e para o quem pode mais chora menos. Assim não construímos sistemas – porque sistemas dependem de que cada parte funcione por si só mas também para o todo. A gente não liga para o todo – temos a ilusão de que se resolvermos o nosso está bom. (Enquanto eu estiver bem dentro do meu carro, que se exploda o metrô!) Adoramos prerrogativas, vantagens especiais, contarmos com mais direitos do que os outros. Somos fascinados por camarotes, por bocas livres, por crachás que deem acesso a lugares onde os outros não chegam. Eis o ponto: nada é mais distante, insignificante e sem valor para um brasileiro do que outro brasileiro. Daí a vida valer tão pouco por aqui. O outro não vale nada. Amarra o ladrão no poste e lincha. Problema dele, não meu. O PICMB cuida de si e dos seus – e cada um que cuide de si. Não existe solidariedade no Brasil. Nem o pensamento coletivo, o sentimento de conjunto. Somos um empilhamento mal combinado de milhões de indivíduos que só querem saber de si mesmos. O PICMB é um fruto e um arauto disso.

Daí utilizarmos o acostamento descaradamente. Trata-se de um espaço coletivo – que o PICMB transforma em espaço particular, à revelia dos demais. Daí a luz amarela do semáforo no Brasil ser um sinal para avançar, que ainda dá tempo – enquanto no Japão, por exemplo, é um sinal para parar, que não dá mais tempo. Nada traduz melhor nossa sanha por avançar sobre o outro, sobre o espaço do outro, sobre o tempo do outro. Parar no amarelo significaria oferecer a sua contribuição individual, em nome da coletividade, para que o sistema funcione para todos. Uma coisa que o PICMB prefere morrer antes a ter de fazer.

Por fim, um teste simples para identificar outras atitudes que definem o PICMB: liste as coisas que você teria que fazer se saísse do Brasil hoje para morar em Berlim ou em Toronto ou em Sidney. Lavar a própria roupa, arrumar a própria casa. Usar o transporte público. Respeitar a faixa de pedestres, tanto a pé quanto atrás de um volante. Esperar a sua vez. Compreender que as leis são feitas para todos, inclusive para você. Aceitar que todos os cidadãos tem os mesmos direitos e os mesmo deveres – não há cidadãos de primeira classe e excluídos. Não oferecer mimos que possam ser confundidos com propina. Não manter um caixa 2 que lhe permita burlar o fisco. Entender que a coisa pública é de todos – e não uma terra de ninguém à sua disposição para fincar o garfo. Ser honesto, ser justo, ser pontual. Se tudo isso lhe for intragável, não tenha dúvida: você está se transformando num PICMB. Reaja.

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segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014 Sem categoria | 10:02

É preciso ter um propósito – ou a vida fica muito chata

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Quem tem uma causa está sempre trabalhando para si mesmo - até quando trabalha para os outros

Quem tem uma causa está sempre trabalhando para si mesmo – até quando trabalha para os outros

Recebo a seguinte mensagem de uma leitora do Manual, por obra deste artigo que publiquei esses dias:

“Querido Adriano,

Queria muito poder abrir mão desse componente que apesar de não ser essencial, parece: a grana. Pode parecer contraditório mas a angústia, o frio na barriga e o medo do incerto nessa altura do campeonato são maiores do que os sapões engolidos todo santo dia.

Vamos à minha história, que carinhosamente chamo de ‘parece, mas não é’. E desculpe se volto muito ao passado, mas ele explica grande parte das minhas inseguranças no mundo profissional.

Mãe: trabalhou por 35 anos na mesma empresa, onde começou como office-girl e se aposentou como gerente financeira, muito respeitada. Foi a responsável pela provisão em casa. Criou as duas filhas com limitações, mas sempre buscando o melhor. Leia-se: estudamos sempre em escolas particulares, mas não íamos à Disney todo ano como nossas coleguinhas de sala.

Pai: sempre fez de tudo um pouco, de maneira bem instável, é verdade, mas sempre se desdobrando para também dar o melhor às duas filhas. Trabalhou em editoras como representante de vendas, em corretora de seguros, em banco e até arriscou por duas vezes um negócio próprio mas nunca foi para a frente. Minha mãe sempre dizia que ele não nasceu para ter chefe. Meu pai parou de trabalhar antes da minha mãe e ficava em casa conosco.

Isso explica muito minha insegurança no mundo do empreendedorismo. Se tenho uma família a sustentar e um padrão de conforto a manter, preciso de estabilidade, não posso me aventurar.

Me formei em faculdade de primeira linha na minha área (Marketing), fiz pós-graduação, e sempre trabalhei em multinacionais que me deram um belo currículo. Mas além do currículo, essas mesmas empresas me deram experiência e me fizeram enxergar ao longo do caminho que nada vale a pena no mundo corporativo. Não vale a pena se sacrificar, pois no final do ano, sua avaliação de performance será medíocre comparada com o colega que ainda acha que beijar as mãos do chefe vale a pena. Não vale a pena vender mais, quem está ganhando nesse jogo é a pessoa jurídica e os acionistas dela e não você. Não vale a pena ser respeitado, ser referência pois tudo é efêmero nesse mundo. Enfim, poderia tecer uma lista gigantesca de todos os inconvenientes do mundo corporativo. Mas você já fez isso de maneira brilhante no artigo.

 Hoje sou uma gerente, especialista pois não tenho equipe, o que é um dos motivos da minha frustração. Pareço ter um cargo importante, em uma multinacional importante, com um salário bem adequado a essa importância toda e tenho amigos que me consideram uma profissional de moderado sucesso.

Como eu vejo: uma especialista que entende de tudo um pouco na minha área, que só é gerente por que o título do cargo é esse, cujo salário é uma prisão e que está cada vez mais frustrada, faz cada vez menos e cada vez pior as tarefas do dia a dia, empurrando mesmo com a barriga. Faço o que deve ser feito. Nem um passo a mais. Não gosto do que faço e, a bem da verdade, não faço muita coisa pois as verbas são cada vez menores.

Minha prisão:

– Um bom salário: que chega a ser o triplo do salário do meu marido e que sustenta grande parte do nosso padrão de vida e me dá a segurança de que consigo criar bem meu filho

– Um chefe que fica em outro país: o que me dá a tranquilidade de não ter alguém na minha cola, me cobrando o tempo todo e me avaliando a todo minuto

– Flexibilidade: entro a hora que quero, saio a hora que quero, posso trabalhar em casa. Levar e buscar meu filho na escola, ficar com ele em casa quando ele está doente.

Meu dilema:

Por que largar um emprego dos sonhos como esse (é o que sempre escuto) e partir para um negócio próprio? Não seria melhor manter o status quo e garantir um bom futuro para meu filho? Por que largar um emprego em que tenho vantagens que não passam de sonho para outras pessoas?

Tenho proposta para ir para outra empresa. Durante um tempo, a euforia do aprendizado me faria crer que tomei a decisão certa, quando na verdade só estaria mudando de CNPJ e quiçá para uma situação pior, sem as vantagens que tenho hoje. Mudar de lado? Ir para o lado do fornecedor, da agência, da consultoria, seria oportunidade de aprender coisas novas e talvez a euforia durasse mais tempo, mas no fim das contas, só demoraria um pouco mais para desanimar de novo (sem contar as desvantagens da falta de horário, do sacrifício, das mãos a serem beijadas – afinal tudo isso existe do outro lado também.)

Sim, a grana é importante para mim agora, mas não aguento mais a situação. Além disso, não faço ideia do que fazer, de uma alternativa, do que gosto, de algo em que sou muito boa, de algo que as pessoas falem que eu deveria ganhar dinheiro com aquilo.

Incrível como a história influencia nosso destino e nossas decisões. Sou aquela mesma alma do meu pai que quer se livrar do mundo corporativo, aprisionada na segurança e na estabilidade que minha mãe transmitiu serem tão importantes.

E enquanto escrevia esse texto me dei conta de que tenho um tesouro nas mãos! Tempo. Me dei conta de que preciso utilizar essa flexibilidade e tempo livre que tenho e canalizar energias para:

1.          Encontrar o que me faz feliz – o caminho do autoconhecimento, como você muito bem coloca;

2.         Investir nessa felicidade enquanto tenho a segurança e estabilidade que a corporação me oferece, por mais injusto que isso possa parecer com a empresa. Mas, no final das contas, o que é justo no jogo corporativo, não é mesmo?

Obrigada por me encaminhar a essa reflexão. E, mais uma vez, desculpe o tamanho do desabafo. Abs!”

Trata-se, como se vê, da reflexão de uma executiva experiente e bem formada. Uma reflexão que fala com a minha vida e com a sua. E que, portanto, nos permite pensar juntos. Coloco aqui a minha análise. E, como sempre, você está convidado para colocar a sua, OK?

Cara leitora,

Há dois pontos claros no seu depoimento. Leia mais »

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