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segunda-feira, 31 de março de 2014 Sem categoria | 12:15

Contra o assédio – e também contra o apartheid sexual

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garotamericana

A famosa foto de Ruth Orkin, de 1951, “Uma garota americana na Itália”, não é engraçada, é constrangedora – trata-se de assédio sexual puro

Tem um site muito interessante chamado Olga, que se define assim: “um think tank dedicado a elevar o nível da discussão sobre feminilidade nos dias de hoje. […] A partir de um diálogo honesto, encontraremos formas femininas de pensar a vida.” São meninas jovens, nascidas com a Revolução Digital, buscando desenvolver o que se poderia chamar de “novo feminismo”.

No final do ano passado, elas lançaram uma campanha, “Chega de Fiu-Fiu”, que se define assim: “uma campanha contra o assédio sexual em espaços públicos. Quando transformamos em coisa rotineira o fato da mulher não ter espaços privados – nem mesmo serem donas do seu próprio corpo –, incentivamos a violência. E isso NÃO é normal. Vamos reforçar nossa luta contra o assédio, afinal, temos o direito andar na rua sem medo de sermos intimidadas. Para isso, manteremos o debate sobre assédio sexual vivo e frequente.”

A campanha “Chega de Fiu-Fiu” realizou uma sondagem na internet sobre assédio que contou com 7 762 respondentes.

E agora chega essa pesquisa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), órgão do governo, como um soco, mostrando que 58,5% dos entrevistados concordam que “Se as mulheres soubessem como se comportar, haveria menos estupros”. Segundo o estudo, 65,1% concordam também com a frase “Mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas”. A pesquisa do Ipea ouviu 3 810 brasileiros em 212 cidades. Do total de entrevistados, 66,5% são mulheres.

E eu que imaginava que feminismo era uma coisa do passado, ao estabelecer as mulheres como uma minoria, sendo que elas já são maioria no mercado de trabalho e responsáveis pelo sustento na maioria dos domicílios brasileiros, fico pensando que as meninas do Olga tem razão em construir uma comunidade ao redor dessa causa. As mulheres não são uma minoria – nem mesmo na pesquisa do Ipea, em que é assustador que ao menos 66,5% dos entrevistados (elas!) não tenham rechaçado frontalmente as questões que sugerem a responsabilidade das vítimas (elas!) nos casos de estupro. Ainda assim, há questões específicas que afligem as mulheres, como o assédio, que precisam ser colocadas sob o holofote.

Por esses mesmos dias, voltou à tona a ideia do estabelecimento de um vagão rosa no metrô de várias cidades, onde só poderiam entrar mulheres, como uma medida para coibir o assédio no transporte público. (Teríamos também partes nos ônibus, ou ônibus inteiros, pintados de rosa, já que esse é o principal modo de transporte público no Brasil?)

Tudo isso me fez pensar um pouco.

Acho que há duas questões centrais aqui. Uma, estressarmos o que é assédio sexual. Outra, como combatê-lo.

É muito claro que beijo forçado, beijo roubado (tema de marchinhas de Carnaval e poemas parnasianos!), puxões, agarrões, pescoções, gravatas, encoxadas, apalpadas, mãos bobas, corredor polonês, cercos, emboscadas e outras ignomínias são assédio sexual – e não tem o menor lugar no mundo civilizado. Nem como piada de extremo mau gosto – como calouras universitárias sendo instadas a simular sexo oral em bananas em via pública. (Também não deveríamos achar engraçada, mas execrar aquela famosa foto, “Uma garota americana na Itália”, de Ruth Orkin, de 1952, certo?)

Mas há zonas cinzentas sobre as quais gostaria de ouvir as mulheres, inclusive as meninas do Olga. Especialmente no que não se refere a ações físicas mas sim a olhares, gestos e frases. Essa é uma fronteira difusa. Até onde vai a paquera e onde começa a agressão? Para eliminarmos o assédio, teremos que eliminar a corte, também? Eis o que penso – minha contribuição ao debate.

 

O QUE NÃO FOI PERMITIDO ESTÁ PROIBIDO

Assédio, me parece, é qualquer coisa que ultrapasse a risca da (ausência de) permissão. Bater na porta alheia não é, em si, um problema. (Talvez seja, inclusive, um direito.) Forçar a porta, tentar a maçaneta, em qualquer hipótese, é um problema seriíssimo. A paquera é um jogo de sinais. Ignorar um sinal negativo, e insistir na intenção, é assédio. Não ser correspondido e continuar na conversa, quanto o interlocutor deseja ficar em silêncio e não ser incomodado, é assédio. O assédio pode muito bem não estar na primeira frase – mas está sempre na segunda. Assédio não está na expressão do interesse – está na insistência. O assédio não está na proposta, mas em desconsiderar uma resposta negativa. Assédio não é propor, mas importunar. Assédio não está em exercer o direito ao flerte, mas em desrespeitar o direito do outro de não querer tomar parte naquela interação.

QUEM QUER SEDUZIR NÃO AGRIDE

Assédio, portanto, não tem a ver com abordar outra pessoa. Tem a ver com agredi-la. O assédio não é definido por uma cantada. A questão é se ela contem ou não uma intenção de ultraje. O problema não está na declaração – mas no tapa que ela por ventura contenha. Eis o ponto – uma declaração pode tanto conter um elogio quanto um safanão. Às vezes não é nem o texto, mas simplesmente o tom. É possível constranger ou intimidar sem dizer palavra, inclusive. O estupro, que é tomar à força, encontra espelho no insulto – uma espécie de estupro verbal. E nada disso tem a ver com sedução. Ao contrário: trata-se de agredir aquilo que não se pode ter. De enxovalhar quem não lhe quis. Ou quem lhe ameaça ou desestabiliza com sua simples presença, com o tanto que mexe com você. O assédio é a contraface espúria de um sentimento de atração muito mal resolvido. Se a pornografia é o ato de ter prazer olhando algo que você nunca vai poder tocar, o assédio é o prazer de agredir quem você nunca poderá ter.

O SEU DESEJO NÃO VALE MAIS DO QUE O MEU

Assédio é quando a realização do desejo de um implica a negação do desejo do outro – ou a realização forçada do não desejo do outro. O problema reside aí, na submissão da vontade de um aos interesses do outro, em qualquer nível – estamos falando da abordagem de estranhos mas podemos extrapolar esse raciocínio para o assédio dentro de relacionamentos. O assédio, como imposição de uma pessoa sobre a outra, acontece com frequência por aí, em namoros e casamentos. O jogo amoroso é um contrato baseado numa regra única – tem que ser mutuamente divertido. Sempre que não for divertido para uma das partes, seguir adiante significa incorrer em assédio. Qualquer ato que não for consensual configura assédio. Assédio é abuso de força – tanto quanto o estupro. Enquanto estupro é jugo físico, assédio é jugo moral.

“NÃO” SIGNIFICA EXATAMENTE ISSO: NÃO

O ponto central, o limite indevassável, é o “não”. A mulher, como qualquer pessoa, tem que ter assegurado o seu direito de não querer. E isso nada tem a ver com o estilo de roupas, com supostos sinais mal compreendidos, com pretensos comportamentos que estimulam o ataque – esse é o discurso do predador, que tantas mulheres, a pesquisa do Ipea nos mostrou, absorvem e reproduzem, inclusive em suas famílias, diante dos seus filhos. Isso é odioso – quase tanto quanto o ato que esse discurso tenta justificar.
Meu ponto em tentar definir bem o assédio, para execrá-lo, é também deixar claro o que não é assédio – a abordagem amorosa, a corte, o flerte – para celebrá-lo. O risco na justa erradicação do assédio é eliminarmos junto todas as possibilidades de aproximação afetiva entre duas pessoas que ainda não se conhecem. Como se o ideal, para uma mulher, fosse que não lhe olhassem, não lhe desejassem, não lhe dirigissem a palavra, não se interessassem por ela. Um ideal asséptico que, quero crer, não tem nada a ver conosco, seres humanos. Tenho certeza de que não é assim que pensa a maioria das meninas. Mais: tenho a certeza de que não pode ser assim. Por isso há algumas distinções que precisamos fazer. Na pesquisa “Chega de Fiu-Fiu”, da Olga, por exemplo, “cantada” foi considerada um sinônimo de assédio. Assim como foi computado como assédio o sujeito dizer “Linda”, “Princesa” e “Boneca” para uma mulher. Dependendo do tom, só se poderia reprovar essas abordagens por cafonice – não exatamente por “assédio”.

Precisamos definir bem esses limites inclusive para sermos muito duros no combate aos agressores. Até onde vai o elogio a uma mulher e a partir de onde começa o assédio? Concordo com as bravas meninas do Olga que assobios são sempre chulos e deselegantes – e, portanto, constrangedores. Mas… puxar conversa pode? Passar um bilhete? Enunciar um elogio? Um convite? Uma proposta? Sustentar um olhar eloquente? Ou tudo isso também seria considerado uma invasão ao direito da mulher de não ser abordada? Como garantir a inviolabilidade da privacidade feminina, e o seu direito irretorquível de não ser molestada, e ao mesmo tempo não exterminar todas as gônadas existentes no planeta? Um bom exercício, para os homens, seria inverter os papeis – se a sua abordagem ferisse a sua honra, queridão, certamente está ferindo também a honra da mulher em questão. Outro exercício masculino interessante seria não reproduzir nada que você não gostaria que fosse feito ou dito à sua mãe. Simples assim.

Eu gosto de paquera. Acho saudável. Penso que um mundo com mais sedução, com pessoas expressando seu desejo de modo mais livre e aberto, é um mundo melhor, menos reprimido, menos recalcado. (De novo, não consigo esquecer dos 66,5% dos entrevistados na pesquisa do Ipea – elas! – que contribuíram muitíssimo com aqueles resultados pavorosos. Dizer que determinado comportamento feminino estimula o estupro, e que certas mulheres merecem ser estupradas é de uma ignorância e de um primitivismo inadjetiváveis. Eu estava certo de que aquelas mulheres que fizeram vigília por Doca Street, o assassino de Ângela Diniz, no fim dos anos 70, não eram mais hegemônicas entre nós, de que eram peças de museu. Aparentemente, eu estava enganado. Esse tipo de coisa nos faz lembrar que todo estuprador foi educado também por uma mulher.)

Ainda assim temos que ter o cuidado de não gerar muralhas entre as pessoas, banindo da vida a espontaneidade, a proximidade, a informalidade, a simpatia e, por que não?, o exercício da sedução. Não me parece, por exemplo, que a criação de vagões rosa seja boa solução – soa como segurar o rabo e balançar o cachorro. Primeiro, porque pune a vítima e não o agressor. Funciona, a meu ver, metaforicamente, como um cinto de castidade. Enquanto o agressor continua solto e impune, à espera do momento em que o vagão rosa ou o cinto de castidade não esteja disponível. Depois, porque segrega pessoas. Gera uma espécie de apartheid sexual. Não chegaremos a lugar algum assim. Significar ainda tomarmos todos os homens por agressores – o que não é verdade. Há homens, quero crer, agradáveis, interessantes, elegantes, respeitosos, de quem as mulheres gostariam de estar próximas – inclusive, eventualmente, para receberem uma cantada. (Ou para exercerem o seu direito a dar uma cantada.) A questão aí, a meu ver, é reconhecer o problema imediatamente, quando ele acontecer, ou antes dele se consumar, e gerar meios para punir exemplarmente os agressores. A proximidade de homens de bem, nesse caso, pode, inclusive, favorecer as mulheres. (Eu gostaria de estar por perto, por exemplo, na próxima vez que um predador armar seu bote.) Se nos apartarmos em nome dos agressores, eles terão vencido. E ficarão mais à solta, mais à vontade, mais impunes. No trem, no trabalho, na rua, em qualquer lugar.

Temos que coibir a grosseria – e não o elogio. Temos que perseguir a agressão – e não o desejo (e a sua expressão). Temos que achacar a misoginia – e não o interesse no outro, a energia sexual que nos conecta e que, afinal, dá graça à vida. Não podemos confundir assédio com desejo. Aliás, penso que o insulto não tem nada a ver com a sedução. O sujeito que empreende esse tipo de ação, no fundo, não gosta de mulher. Não gosta do outro. Não gosta de ninguém. É um sádico. É um egotista doente, incapaz de perceber o espaço alheio e de respeitar o outro. Quem agride não tem esperanças de que isso resulte numa conquista. Não podemos eleger esse cara como regra, e, a partir desse parâmetro, julgar todos os outros. Esse cara é um predador – ele é a exceção – e não pode definir a nossa política a respeito da questão.

A questão está em não tocar, não ameaçar, não constranger. De novo, o ponto essencial: consentimento. Com ele, não há limites ao que se pode desfrutar. Sem ele, não se pode andar um milímetro a mais. Agora, pedir o consentimento, perguntar se a luz é verde ou vermelha, é, a meu ver, um direito universal de todos nós. Resguardada a prerrogativa da permissão, o resto é paquera. O resto são olhares, flores, bilhetes, piscadelas, palavras e gestos de adulação, válidos, lícitos, pertinentes ao jogo da sedução.

Se faz sentido imaginar que a tradição da espécie passa por machos que cortejam e por mulheres que fazem a filtragem (inclusive genética) nessa intersecção de desejos, o assédio, do ponto de vista evolutivo, é um absurdo que tenta tomar de assalto das mulheres a sua prerrogativa – que é escolher entre os pretendentes. Uma boa política antiassédio não tentaria tirar dos homens a sua prerrogativa de se candidatar – o que seria também, a seu modo, um absurdo do ponto de vista evolutivo.

Dito de outro modo: que não acabemos com a iniciativa masculina – que serve e que faz bem às mulheres. É assim, também, que temos nos conhecido e encontrado nossos pares vida afora, há séculos – abordando estranhos que nos atraem e que gostaríamos de conhecer melhor, na balada, no transporte público, na escola. A moça que apareceu naquela foto, num metrô, dentro de um cubo de metal, uma espécie de afastador de gente, impondo seu espaço privado dentro do espaço público, é, no final das contas, um retrocesso, uma derrota da civilização. Por essa via, nos transformaremos em autômatos, gente que não se toca, não se fala, não se procura, não se vê, não se fala.

Legislemos duramente contra o assédio – mas não de modo a banir o flerte entre nós. Estimulemos, inclusive, as mulheres a flertarem mais. (Isso também é feminismo!) Ou o mundo vai ficar muito chato e feio – bem mais do que já é.

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