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segunda-feira, 20 de janeiro de 2014 Sem categoria | 11:59

A hora de cair fora

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Ei, não está na hora de você ouvir Ray Charles bem alto?

Ei, não está na hora de você ouvir Ray Charles bem alto?

Como empresário, já fui um fornecedor pequeno brigando no meio de gigantes. Ralava para ser relevante. Não tinha as melhores conexões – num lugar em que as conexões eram tudo. Havia uma liturgia ali, regada por relações antigas, que eu não praticava do melhor modo. O ambiente demandava um glossário e um jeito de falar e de agir que não me esforcei muito para dominar. Eu queria estar ali. Mas não à custa de ter que deixar quem eu era do lado de fora da porta ao entrar.

Aí, numa daquelas conversas de fim de reunião, a moça começou a falar de um filme que havia assistido e que se passava na Malásia. Eu perguntei se era ambientado em Kuala Lumpur. E ela me respondeu: “Não, ele se passa Malásia”, meio impaciente por eu não estar prestando atenção à conversa. Então aquele papo, que não tinha a pretensão de significar nada além de uma amenidade acabou ganhando um sentido: há fornecedores imperfeitos, mas há clientes piores ainda.

E eu fiquei por causa da grana.

Como executivo, já trabalhei em ambientes em que fui humilhado. Em que cheguei de boa fé e tomei tapa na cara. (Aguentei o tapa para mostrar fibra. E isso não me valeu de nada.) Ambientes em que não tinha amparo nem para cima, nem para os lados, nem para baixo. Em que não tinha nenhuma certidão de pertencimento a apresentar – o que é um pecado mortal no mundo corporativo. Você precisa escolher bem algumas mãos para beijar se quiser crescer de verdade.

Já trabalhei em lugares em que a gentileza vira obrigação. E em que a rudeza é a regra geral de convivência. Em que para se sentir engrandecido é preciso diminuir quem está à volta. Lugares em que as disputas são vencidas no grito. Ou então antes do grito – pela heráldica do sujeito. (Nunca por mérito.)

Lugares em que para sentar à mesa é preciso saber jogar o jogo das cotoveladas e das rasteiras. Eu me recusei a operar dessa forma. E me dei mal. Poderia ter saído antes. Mas fiquei até o final. Para curtir a vertigem da queda até o último metro. É muito melhor estar livre, em busca de um novo projeto para chamar de seu, do que estar amarrado ao inferno em nome de um salário.

Mas fiquei por causa da grana.

Estamos começando um novo ano. Não sei quem você é nem onde você trabalha. Não sei qual é a sua profissão nem qual é a sua formação ou o cargo que ocupa. Sei só uma coisa, aprendida duramente na experiência, e que gostaria de dividir aqui com você: nada vale a sua felicidade. Nem a sua paz interior. Perdoe o clichê, mas a carreira é curta, e a vida mais curta ainda, para que você se acomode numa posição que você já sabe que só vai lhe envenenar o fígado.

O mercado de trabalho está apinhado de péssimos lugares para trabalhar. E, no entanto, a gente vai ficando, tentando se adaptar a chefes brutais, a colegas desonestos, a patrões que não valem um peido de vaca. Em nome de um salário e de um pacote de benefícios. Diante disso, só resta riscar uma linha no chão e saber exatamente a partir de que ponto você não vai deixar ninguém passar. Inclusive para não acreditar que a inadaptação àquele ambiente decorre de um problema com você. Inclusive para não correr o risco de virar um daqueles chefes, um daqueles colegas, um daqueles patrões.

Se eu pudesse lhe dizer só uma coisa, lhe diria isso, de todo o coração: sempre que a única razão para ficar for a grana, caia fora.

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