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segunda-feira, 4 de novembro de 2013 Sem categoria | 18:09

Vergonha de ter – e vergonha de não ter

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Tal qual o personagem de Eric Stoltz, eu tinha vergonha da casa em que morava.

Tal qual o personagem de Eric Stoltz, eu tinha vergonha da casa em que morava.

Moro num apartamento bacana, num bairro legal. Nunca pensei em morar num lugar assim. No começo da vida adulta, olhava para o conforto de algumas famílias, para o aconchego imponente de algumas residências, e tinha a certeza de que jamais teria condições de construir algo parecido para mim. Não enxergava ponte entre o meu presente, naquela época, e um sonho desse porte. Então nem sonhava.

Minhas primeiras lembranças são de morar num BNH com minha família. Meus pais estavam na batalha. Anos antes, tinham morado em quarto de pensão. Então sou daquelas pessoas que já fingiram não morar em sua própria casa, por vergonha. Quando ganhava uma carona, com o pai ou a mãe de um colega, nas festinhas pré adolescentes, eu saltava antes. Ou depois. Fingia entrar num prédio que não era o meu. Depois que o carro ia embora, eu tomava o rumo da minha casa de verdade. Às vezes pulando uns muros, sem tirar a cara do escuro.

O embaraço persistiu até a idade adulta. Nós já tínhamos nos mudado para a cidade grande. O pessoal da faculdade uma vez passou para me pegar para um fim de semana no sítio de alguém. Eu tinha uns 20 anos. O nosso prédio acanhado me constrangia. Morava na sala do apartamento de quarto e sala da minha mãe. Meu pai, por essa época, dormia em seu escritório. Ou quase isso. Anos duros. Não havia muito a quem recorrer. Há situações na vida em que você só tem a alternativa de ir adiante, na velocidade que der, controlando a angústia, sem desistir.

Uma vez, por essa época, voltei para casa e todos os meus amigos estavam lá. Na sala daquele conjugado que eu habitava. Descobriam meu quarto improvisado. Desnudavam minha intimidade obscena. Tinham sido convidados contra a minha vontade. Estavam apinhados naquele espaço exíguo, sobre os móveis simples, sentando e pisando onde eu dormia. Quanto mais eles tentavam ser gentis, mais eu me sentia invadido, devassado, agredido com sua presença.

(Um amigo querido que me reencontrou muito anos depois, e que tinha sido confrontado com a minha indignidade naquela tarde, se emocionou ao lembrar daquelas condições e de como a minha vida tinha mudado. Amigo bom é assim: chora de felicidade pelas conquistas da gente. Por solidariedade, por amor, por empatia, por compaixão. )

Tenho hoje, na garagem, o melhor carro que já dirigi na vida. Um carro que é melhor, como veículo, do que sou como motorista. Um carro que eu, no mais das vezes, ainda acho que não mereço e que vejo como uma pequena extravagância que minha mulher me estimulou a empreender. Mas já andei muito a pé. Só aprendi a dirigir e tive meu primeiro carro aos 27 anos. Ia e voltava a pé da escola, na infância. E para a balada e o cinema, na adolescência. Depois andei muito de ônibus, com passagem contada, na época da universidade.

E, claro, já tive vergonha dos carros velhos que minha família teve, nos momentos em que tivemos alguma coisa na garagem. Um Corcel vermelho com mais de 20 anos de uso (nunca houve um carro tão cheiroso e bem cuidado, viu, mãe?), uma Brasília ovo com 15, um Chevette oliva com 10 (onde em tantas tardes fizemos passeios, com o vidro aberto e a FM tocando, que eu jamais esqueci, viu, pai?). Assim como senti vergonha nos períodos em que não tivemos carro.

Hoje moro bem. Mas não estou em paz com o lugar onde moro – trato meu endereço com reserva e parcimônia. A tranquilidade íntima que tenho em relação à minha casa se transforma em intranquilidade quando o assunto vem a público. É um assunto privado sobre o qual eu busco guardar a maior discrição possível. Minha reação é sempre produzir a menor visibilidade possível. Trata-se de um conforto particular que, com frequência, acarreta um constrangimento público. É como se eu continuasse negando o lugar onde moro, fingindo que não é ali que vivo, por constrangimento – só que agora com sinal invertido.

Hoje dirijo um belo carro. Que as pessoas identificam com luxo – ele aparenta ser bem mais caro do que realmente custou. Tê-lo cria mais ideias equivocadas do que corretas a meu respeito. Tê-lo me causa algum embaraço quando chego em determinados lugares. Quase tanto quanto aquele Corcel e aquela Brasília e aquele Chevette de outras eras – só que na ponta oposta da régua.

É curioso como por aqui a gente sofre por não ter, por estar abaixo da média, por ser pobre. E sofre também por ter – num lugar em que tantos não tem. Há constrangimentos na escassez – como se você fosse culpado por não possuir. E também na fartura – como se você fosse culpado pelas conquistas que fez na vida. Acho que a condição de pobretão me expôs e me machucou em alguns momentos. Assim como acho que hoje a condição de remediados, talvez abastados, expõe meus filhos. Oxalá isso nunca os machuque.

Vivemos num lugar onde não ter nada é garantia de discriminação e de desprezo. E em que ter conseguido juntar alguma coisa é garantia de ser achacado, de ser odiado, de gerar desconfiança e inveja, mal estar alheio e cobiça. Desde o assalto à mão armada na janela do carro, no semáforo, até o empréstimo em família que jamais será saldado. Desde o manobrista que recebe seu carro com reverência farpada até o colega que um dia você convidou para um queijos e vinhos em casa e que nunca mais lhe olhou do mesmo jeito.

Eis a estranha história de um cara que, não importa o que tenha feito, vai viver a vida inteira constrangido pelo lugar onde mora e pelo modo como se locomove.

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