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segunda-feira, 14 de abril de 2014 Sem categoria | 13:48

Pequeno Glossário (atualizado mas provisório) de Abismos Semânticos Sexuais

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Yes, by all means!

Yes, by all means!

Depois do relativo sucesso do Pequeno Glossário (atualizado mas provisório) de Abismos Semânticos Políticos, reúno aqui mais algumas ideias sobre termos que usamos à larga – muitas vezes sem nos darmos conta do que eles significam de verdade.

CHUPA!

Uma das coisas mais caretas e sem sentido que há é dizer “Chupa!” para alguém que você quer sacanear ou ofender. Porque é bom chupar. É ótimo. Tanto quanto ser chupado. (E, às vezes, até mais).

Não há inconveniente ou vergonha ou humilhação nisso. Chupar não constitui uma situação pejorativa.

A menos que você seja daqueles caras que ficam empurrando a cabeça da mulher para baixo ao mesmo tempo que tem nojo de vagina.

A menos que você considere que, na cama, quem acaricia ocupa uma posição subalterna. Ou que a genitália é uma coisa suja e que colocar a boca lá é uma depreciação para quem o faz. O que são duas ideias muito antigas e cafonas.

FODA-SE!

“Foda-se” é, de alguma forma, fazer sexo consigo mesmo. Remete a algum tipo de masturbação. Com inserção de alguma coisa em algum lugar – ou não. De novo, o que pode haver de ofensivo nisso?

Minha geração, lá pelos anos 80, usava “É foda!” ou “Tá foda!” para indicar uma situação desagradável. A meu ver, uma enorme contradição – foda é uma coisa boa!
Mas já surgia por lá uma outra acepção. Uma das minhas turmas de segundo grau se intitulava “Os fodões” – e isso era uma coisa boa, autoelogiosa. Queria dizer que éramos “foda” – no bom sentido.

Hoje ambos os sentidos parecem conviver, com leve vantagem para o sentido positivo sobre o pejorativo. (Como pode uma palavra significar uma coisa e também o seu contrário? Nós somos muito doidos e a linguagem expressa bem isso.) Quando há um trabalho muito bacana que chega ao mercado, todo mundo diz, em respeito, “foda!”, como se essa fosse a expressão máxima do elogio. Nas redes sociais, escreve-se isso com uma hashtag antes – e é elogio puro.

“Me fodi”, no entanto, continua sendo algo ruim. De novo, uma perseguição ao sexo solitário, seja ele qual for.

“Vou te foder” ou “não vá me foder” também não quer dizer coisa boa – quando deveria meramente se referir a sexo que, de novo, e de modo geral, é uma coisa boa.

Já “não fode!” tem um sentido mais leve, quase sardônico, que significa “ah, conta outra” ou “ah, não enche”.

(Aliás, “encher o saco” é um termo que faz sentido – remete à congestão testicular de quem não tem “fodido”, nem com os outros nem consigo mesmo. E “fodido”, contraditoriamente, é alguém que está na pior. Mas “fodido” é alguém que tem feito sexo, ou seja, a alguém, em tese, mais feliz do que outro que estiver de “saco cheio”.)

VAI TOMAR NO CU!

É bastante provável que, no caso de “foda”, como em várias outras xingações, metade do efeito seja simplesmente pronunciar uma palavra que a norma manda silenciar – podia ser “boceta!” ou “caralho!”, que o efeito seria o mesmo. Ou seja: o significado pouco importa, o ultraje está na própria quebra de protocolo. A outra metade da intenção pejorativa relacionada a “foda” se deve à insinuação de uma posição sexualmente passiva do interlocutor. Ou seja: “fodão” é o cara que penetra, “fodido” ou “se fodeu” é o cara que é penetrado. O que revela o machismo, o falocentrismo e o heterototalitarismo de ambos os termos. Então as mulheres, que não tem falo, estarão sempre “fodidas”?

Há aí também, como subtexto, o nosso preconceito e o nosso assombro em relação ao sexo anal. Dediquemos um minuto de atenção a “tomar no cu”. “Tomar”, sexualmente, em qualquer lugar, já seria um insulto. Mas “tomar no cu” é o paroxismo da ofensa sexual. Só que há milhões de homens e mulheres por aí, tanto heterossexuais como homossexuais, que haverão de discordar disso, para os quais “tomar no cu” pode ser bem prazeroso. E eles certamente não trancafiarão essa possibilidade a um falo – mas a expandirão também a “tomar” um dedo carinhoso ou uma língua macia ou algum outro brinquedinho especialmente concebido para essa modalidade. Ou seja: “tomar no cu” está muito longe de ser uma unanimidade nessa intenção negativa que carrega.

Em inglês, há a expressão “kiss my ass”, em que quem “toma no cu” – um beijo, uma lambida, um axé, qualquer coisa – é quem está bem na foto, enquanto quem está na ativa, a serviço daquele “ass”, é que está em desvantagem. Não temos no Brasil um equivalente a esse termo. Entre nós o cu é um objeto que jamais chegará a ser sujeito, um flanco desguarnecido que está longe de se tornar um playground.

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segunda-feira, 7 de abril de 2014 Sem categoria | 12:01

Você ainda sabe se é de direita ou de esquerda?

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Você é de esquerda, de direita ou muito antes pelo contrário?

Você é de esquerda, de direita ou muito antes pelo contrário?

Te chamaram de reaça? Já foi de esquerda? Tem vergonha de assumir que é de direita? Tá perdidinho no meio de todos esses conceitos e de como eles mudaram ao longo dos anos? Confira sua posição política nesse Pequeno Glossário (atualizado e provisório) de Abismos Semântico Políticos. Leia mais »

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segunda-feira, 31 de março de 2014 Sem categoria | 12:15

Contra o assédio – e também contra o apartheid sexual

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garotamericana

A famosa foto de Ruth Orkin, de 1951, “Uma garota americana na Itália”, não é engraçada, é constrangedora – trata-se de assédio sexual puro

Tem um site muito interessante chamado Olga, que se define assim: “um think tank dedicado a elevar o nível da discussão sobre feminilidade nos dias de hoje. […] A partir de um diálogo honesto, encontraremos formas femininas de pensar a vida.” São meninas jovens, nascidas com a Revolução Digital, buscando desenvolver o que se poderia chamar de “novo feminismo”.

No final do ano passado, elas lançaram uma campanha, “Chega de Fiu-Fiu”, que se define assim: “uma campanha contra o assédio sexual em espaços públicos. Quando transformamos em coisa rotineira o fato da mulher não ter espaços privados – nem mesmo serem donas do seu próprio corpo –, incentivamos a violência. E isso NÃO é normal. Vamos reforçar nossa luta contra o assédio, afinal, temos o direito andar na rua sem medo de sermos intimidadas. Para isso, manteremos o debate sobre assédio sexual vivo e frequente.”

A campanha “Chega de Fiu-Fiu” realizou uma sondagem na internet sobre assédio que contou com 7 762 respondentes.

E agora chega essa pesquisa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), órgão do governo, como um soco, mostrando que 58,5% dos entrevistados concordam que “Se as mulheres soubessem como se comportar, haveria menos estupros”. Segundo o estudo, 65,1% concordam também com a frase “Mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas”. A pesquisa do Ipea ouviu 3 810 brasileiros em 212 cidades. Do total de entrevistados, 66,5% são mulheres.

E eu que imaginava que feminismo era uma coisa do passado, ao estabelecer as mulheres como uma minoria, sendo que elas já são maioria no mercado de trabalho e responsáveis pelo sustento na maioria dos domicílios brasileiros, fico pensando que as meninas do Olga tem razão em construir uma comunidade ao redor dessa causa. As mulheres não são uma minoria – nem mesmo na pesquisa do Ipea, em que é assustador que ao menos 66,5% dos entrevistados (elas!) não tenham rechaçado frontalmente as questões que sugerem a responsabilidade das vítimas (elas!) nos casos de estupro. Ainda assim, há questões específicas que afligem as mulheres, como o assédio, que precisam ser colocadas sob o holofote.

Por esses mesmos dias, voltou à tona a ideia do estabelecimento de um vagão rosa no metrô de várias cidades, onde só poderiam entrar mulheres, como uma medida para coibir o assédio no transporte público. (Teríamos também partes nos ônibus, ou ônibus inteiros, pintados de rosa, já que esse é o principal modo de transporte público no Brasil?)

Tudo isso me fez pensar um pouco.

Acho que há duas questões centrais aqui. Uma, estressarmos o que é assédio sexual. Outra, como combatê-lo.

É muito claro que beijo forçado, beijo roubado (tema de marchinhas de Carnaval e poemas parnasianos!), puxões, agarrões, pescoções, gravatas, encoxadas, apalpadas, mãos bobas, corredor polonês, cercos, emboscadas e outras ignomínias são assédio sexual – e não tem o menor lugar no mundo civilizado. Nem como piada de extremo mau gosto – como calouras universitárias sendo instadas a simular sexo oral em bananas em via pública. (Também não deveríamos achar engraçada, mas execrar aquela famosa foto, “Uma garota americana na Itália”, de Ruth Orkin, de 1952, certo?)

Mas há zonas cinzentas sobre as quais gostaria de ouvir as mulheres, inclusive as meninas do Olga. Especialmente no que não se refere a ações físicas mas sim a olhares, gestos e frases. Essa é uma fronteira difusa. Até onde vai a paquera e onde começa a agressão? Para eliminarmos o assédio, teremos que eliminar a corte, também? Eis o que penso – minha contribuição ao debate.

 

O QUE NÃO FOI PERMITIDO ESTÁ PROIBIDO

Assédio, me parece, é qualquer coisa que ultrapasse a risca da (ausência de) permissão. Bater na porta alheia não é, em si, um problema. (Talvez seja, inclusive, um direito.) Forçar a porta, tentar a maçaneta, em qualquer hipótese, é um problema seriíssimo. A paquera é um jogo de sinais. Ignorar um sinal negativo, e insistir na intenção, é assédio. Não ser correspondido e continuar na conversa, quanto o interlocutor deseja ficar em silêncio e não ser incomodado, é assédio. O assédio pode muito bem não estar na primeira frase – mas está sempre na segunda. Assédio não está na expressão do interesse – está na insistência. O assédio não está na proposta, mas em desconsiderar uma resposta negativa. Assédio não é propor, mas importunar. Assédio não está em exercer o direito ao flerte, mas em desrespeitar o direito do outro de não querer tomar parte naquela interação.

QUEM QUER SEDUZIR NÃO AGRIDE

Assédio, portanto, não tem a ver com abordar outra pessoa. Tem a ver com agredi-la. O assédio não é definido por uma cantada. A questão é se ela contem ou não uma intenção de ultraje. O problema não está na declaração – mas no tapa que ela por ventura contenha. Eis o ponto – uma declaração pode tanto conter um elogio quanto um safanão. Às vezes não é nem o texto, mas simplesmente o tom. É possível constranger ou intimidar sem dizer palavra, inclusive. O estupro, que é tomar à força, encontra espelho no insulto – uma espécie de estupro verbal. E nada disso tem a ver com sedução. Ao contrário: trata-se de agredir aquilo que não se pode ter. De enxovalhar quem não lhe quis. Ou quem lhe ameaça ou desestabiliza com sua simples presença, com o tanto que mexe com você. O assédio é a contraface espúria de um sentimento de atração muito mal resolvido. Se a pornografia é o ato de ter prazer olhando algo que você nunca vai poder tocar, o assédio é o prazer de agredir quem você nunca poderá ter.

O SEU DESEJO NÃO VALE MAIS DO QUE O MEU

Assédio é quando a realização do desejo de um implica a negação do desejo do outro – ou a realização forçada do não desejo do outro. O problema reside aí, na submissão da vontade de um aos interesses do outro, em qualquer nível – estamos falando da abordagem de estranhos mas podemos extrapolar esse raciocínio para o assédio dentro de relacionamentos. O assédio, como imposição de uma pessoa sobre a outra, acontece com frequência por aí, em namoros e casamentos. O jogo amoroso é um contrato baseado numa regra única – tem que ser mutuamente divertido. Sempre que não for divertido para uma das partes, seguir adiante significa incorrer em assédio. Qualquer ato que não for consensual configura assédio. Assédio é abuso de força – tanto quanto o estupro. Enquanto estupro é jugo físico, assédio é jugo moral.

“NÃO” SIGNIFICA EXATAMENTE ISSO: NÃO

O ponto central, o limite indevassável, é o “não”. A mulher, como qualquer pessoa, tem que ter assegurado o seu direito de não querer. E isso nada tem a ver com o estilo de roupas, com supostos sinais mal compreendidos, com pretensos comportamentos que estimulam o ataque – esse é o discurso do predador, que tantas mulheres, a pesquisa do Ipea nos mostrou, absorvem e reproduzem, inclusive em suas famílias, diante dos seus filhos. Isso é odioso – quase tanto quanto o ato que esse discurso tenta justificar.
Meu ponto em tentar definir bem o assédio, para execrá-lo, é também deixar claro o que não é assédio – a abordagem amorosa, a corte, o flerte – para celebrá-lo. O risco na justa erradicação do assédio é eliminarmos junto todas as possibilidades de aproximação afetiva entre duas pessoas que ainda não se conhecem. Como se o ideal, para uma mulher, fosse que não lhe olhassem, não lhe desejassem, não lhe dirigissem a palavra, não se interessassem por ela. Um ideal asséptico que, quero crer, não tem nada a ver conosco, seres humanos. Tenho certeza de que não é assim que pensa a maioria das meninas. Mais: tenho a certeza de que não pode ser assim. Por isso há algumas distinções que precisamos fazer. Na pesquisa “Chega de Fiu-Fiu”, da Olga, por exemplo, “cantada” foi considerada um sinônimo de assédio. Assim como foi computado como assédio o sujeito dizer “Linda”, “Princesa” e “Boneca” para uma mulher. Dependendo do tom, só se poderia reprovar essas abordagens por cafonice – não exatamente por “assédio”.

Precisamos definir bem esses limites inclusive para sermos muito duros no combate aos agressores. Até onde vai o elogio a uma mulher e a partir de onde começa o assédio? Concordo com as bravas meninas do Olga que assobios são sempre chulos e deselegantes – e, portanto, constrangedores. Mas… puxar conversa pode? Passar um bilhete? Enunciar um elogio? Um convite? Uma proposta? Sustentar um olhar eloquente? Ou tudo isso também seria considerado uma invasão ao direito da mulher de não ser abordada? Como garantir a inviolabilidade da privacidade feminina, e o seu direito irretorquível de não ser molestada, e ao mesmo tempo não exterminar todas as gônadas existentes no planeta? Um bom exercício, para os homens, seria inverter os papeis – se a sua abordagem ferisse a sua honra, queridão, certamente está ferindo também a honra da mulher em questão. Outro exercício masculino interessante seria não reproduzir nada que você não gostaria que fosse feito ou dito à sua mãe. Simples assim.

Eu gosto de paquera. Acho saudável. Penso que um mundo com mais sedução, com pessoas expressando seu desejo de modo mais livre e aberto, é um mundo melhor, menos reprimido, menos recalcado. (De novo, não consigo esquecer dos 66,5% dos entrevistados na pesquisa do Ipea – elas! – que contribuíram muitíssimo com aqueles resultados pavorosos. Dizer que determinado comportamento feminino estimula o estupro, e que certas mulheres merecem ser estupradas é de uma ignorância e de um primitivismo inadjetiváveis. Eu estava certo de que aquelas mulheres que fizeram vigília por Doca Street, o assassino de Ângela Diniz, no fim dos anos 70, não eram mais hegemônicas entre nós, de que eram peças de museu. Aparentemente, eu estava enganado. Esse tipo de coisa nos faz lembrar que todo estuprador foi educado também por uma mulher.)

Ainda assim temos que ter o cuidado de não gerar muralhas entre as pessoas, banindo da vida a espontaneidade, a proximidade, a informalidade, a simpatia e, por que não?, o exercício da sedução. Não me parece, por exemplo, que a criação de vagões rosa seja boa solução – soa como segurar o rabo e balançar o cachorro. Primeiro, porque pune a vítima e não o agressor. Funciona, a meu ver, metaforicamente, como um cinto de castidade. Enquanto o agressor continua solto e impune, à espera do momento em que o vagão rosa ou o cinto de castidade não esteja disponível. Depois, porque segrega pessoas. Gera uma espécie de apartheid sexual. Não chegaremos a lugar algum assim. Significar ainda tomarmos todos os homens por agressores – o que não é verdade. Há homens, quero crer, agradáveis, interessantes, elegantes, respeitosos, de quem as mulheres gostariam de estar próximas – inclusive, eventualmente, para receberem uma cantada. (Ou para exercerem o seu direito a dar uma cantada.) A questão aí, a meu ver, é reconhecer o problema imediatamente, quando ele acontecer, ou antes dele se consumar, e gerar meios para punir exemplarmente os agressores. A proximidade de homens de bem, nesse caso, pode, inclusive, favorecer as mulheres. (Eu gostaria de estar por perto, por exemplo, na próxima vez que um predador armar seu bote.) Se nos apartarmos em nome dos agressores, eles terão vencido. E ficarão mais à solta, mais à vontade, mais impunes. No trem, no trabalho, na rua, em qualquer lugar.

Temos que coibir a grosseria – e não o elogio. Temos que perseguir a agressão – e não o desejo (e a sua expressão). Temos que achacar a misoginia – e não o interesse no outro, a energia sexual que nos conecta e que, afinal, dá graça à vida. Não podemos confundir assédio com desejo. Aliás, penso que o insulto não tem nada a ver com a sedução. O sujeito que empreende esse tipo de ação, no fundo, não gosta de mulher. Não gosta do outro. Não gosta de ninguém. É um sádico. É um egotista doente, incapaz de perceber o espaço alheio e de respeitar o outro. Quem agride não tem esperanças de que isso resulte numa conquista. Não podemos eleger esse cara como regra, e, a partir desse parâmetro, julgar todos os outros. Esse cara é um predador – ele é a exceção – e não pode definir a nossa política a respeito da questão.

A questão está em não tocar, não ameaçar, não constranger. De novo, o ponto essencial: consentimento. Com ele, não há limites ao que se pode desfrutar. Sem ele, não se pode andar um milímetro a mais. Agora, pedir o consentimento, perguntar se a luz é verde ou vermelha, é, a meu ver, um direito universal de todos nós. Resguardada a prerrogativa da permissão, o resto é paquera. O resto são olhares, flores, bilhetes, piscadelas, palavras e gestos de adulação, válidos, lícitos, pertinentes ao jogo da sedução.

Se faz sentido imaginar que a tradição da espécie passa por machos que cortejam e por mulheres que fazem a filtragem (inclusive genética) nessa intersecção de desejos, o assédio, do ponto de vista evolutivo, é um absurdo que tenta tomar de assalto das mulheres a sua prerrogativa – que é escolher entre os pretendentes. Uma boa política antiassédio não tentaria tirar dos homens a sua prerrogativa de se candidatar – o que seria também, a seu modo, um absurdo do ponto de vista evolutivo.

Dito de outro modo: que não acabemos com a iniciativa masculina – que serve e que faz bem às mulheres. É assim, também, que temos nos conhecido e encontrado nossos pares vida afora, há séculos – abordando estranhos que nos atraem e que gostaríamos de conhecer melhor, na balada, no transporte público, na escola. A moça que apareceu naquela foto, num metrô, dentro de um cubo de metal, uma espécie de afastador de gente, impondo seu espaço privado dentro do espaço público, é, no final das contas, um retrocesso, uma derrota da civilização. Por essa via, nos transformaremos em autômatos, gente que não se toca, não se fala, não se procura, não se vê, não se fala.

Legislemos duramente contra o assédio – mas não de modo a banir o flerte entre nós. Estimulemos, inclusive, as mulheres a flertarem mais. (Isso também é feminismo!) Ou o mundo vai ficar muito chato e feio – bem mais do que já é.

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segunda-feira, 24 de março de 2014 Sem categoria | 15:31

A História de O e a busca pelo erotismo perfeito

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Anne Cécile Desclos, assinando como Pauline Réage, escandalizou Paris em 1954 com A História de O - um clássico da literatura erótica

Anne Cécile Desclos, assinando como Pauline Réage, escandalizou Paris em 1954 com A História de O – um clássico da literatura erótica

Acabo de ler “Story of O”, de Pauline Réage, um clássico da literatura erótica – estou passando uma lista em revista nesse campo. Gosto de literatura e de erotismo. Infelizmente, essa seara é como filme de terror – você assiste dez obras sofríveis até achar uma que valha a pena. Há uma edição de “A História de O” em português, em catálogo, da Ediouro. E o livro já foi publicado no país também pela Brasiliense.

“A História de O” escandalizou a França ao ser publicada, em 1954. A pessoa por trás do pseudônimo “Pauline Réage” só se revelou 40 anos depois da obra vir à tona, numa entrevista à revista americana The New Yorker: tratava-se de Anne Cécile Desclos, que escreveu também uma continuaçao de “A História de O”, em 1969, “Return to the Château”, obra que aparentemente não existe em português – em espanhol traduziram como “Retorno a Roissy”.

Anne Cécile, nascida em 1907, tinha 47 anos quando criou O. Ela morreria em 1998, quatro anos depois de revelar sua identidade ao mundo, aos 91 anos. Anne Cécile foi escritora, tradutora, editora e jornalista, tendo chegado a trabalhar com André Gide. Anne contou ter escrito “A História de O” em resposta ao fato de Jean Paulhan, seu amante e seu chefe na editora Gallimard, um admirador da obra do Marquês de Sade, haver dito que “mulheres não são capazes de escrever romances eróticos”.

Ainda não li “Return to the Chateau”. Não resistirei a fazê-lo, certamente. E pretendo checar a leitura gráfica que Guido Crepax fez da obra de “A História de O”.

Também há dois filmes baseados na obra de Anne Cécile: A História de O, 1975, de Just Jaecking, e “A História de O – 2”, 1984, de Eric Rochat, que também produziu uma série de TV, em 1992, com um elenco cheio de brasileiros, de Nelson Freitas e Paula Burlamaqui.

Em minhas incursões pela literatura erótica, busco obras que me inspirem. É mais ou menos como no mundo (muito mais vasto e segmentado) da pornografia – você tem que achar a frequência que faz sentido para você. Tenho tido mais facilidade para montar um mural do meu agrado na pornografia digital do que propriamente na literatura. As obras clássicas – de “Um Romance Sentimental”, de Alain Robbe-Grillet, a “História do Olho”, de George Bataille – se parecem. E nenhuma delas se parece comigo.

Colo aqui as minhas impressões da leitura do livro de Anne Cécile. Se você também gosta de navegar por essas águas, talvez algumas dessas notas possam lhe ser úteis. O que é erótico para uns pode não ter a menor graça para outros – ao mesmo tempo que escandaliza outras pessoas acolá. E se em sua busca você achar coisas interessantes por aí, é favor me avisar. (Ah, sim. Pode avançar tranquilo, não há spoilers abaixo.)

1. A mulher é sempre um objeto dominado. Do ponto de vista feminino, um objeto nascido para ser dominado. Do ponto de vista masculino, um objeto feito para a dominação. Houve por anos um debate sobre quem estaria por trás do pseudônimo “Pauline Réage”. Talvez fosse um homem. O livro de Anne Cécile é conduzido por um ponto de vista muito masculino sobre a sexualidade – inclusive a feminina. É como se a autora olhasse a si mesma, e ao jogo erótico, não do ponto de vista dela, e nem mesmo do ponto de vista masculino (a sua visão não me conecta, por exemplo), mas sim do ponto de vista do que ela imaginava que um homem pensaria, sentiria e esperaria de um livro erótico. Não é erotismo feminino – mas um livro de erotismo falocêntrico escrito por uma mulher. (A revelação de que ela o escreveu como uma resposta ao desafio de seu amante, um fã de Marques de Sade, pode ajudar a entender isso. O resto é só o machismo e o sexismo misógino tão comumente adotados com afinco pelas mulheres.)

2. Tive a impressão, ao longo da leitura, que as coisas que iam se sucedendo com O representavam, metaforicamente, o sonho de todo macho que começava ali, no pós Guerra, a perder para as mulheres o poder absoluto que detinha na sociedade. A História de O é uma nostalgia expandida da mulher escrava – imagem que, aparentemente, não passava só pela fantasia dos homens conservadores, mas também das mulheres conservadoras: a volta a uma relação feudal e de posse entre os sexos.

3. Boa parte dos clássicos de literatura erótica que tenho lido passam por uma transgressão aos bons costumes de uma sociedade tradicional. Esse é o parâmetro do qual se parte sempre, inclusive em tempos mais recentes, com esse “50 Tons de Cinza”, que celebra bobagens que só podem celebrar leitores que forem cheios de grilos na cama. A suposta transgressão, quando é apenas um espelho invertido da caretice e da convenção, não transgride nada. Ao contrário – celebra a própria canhestrice que tenta disfarçar com cores opostas. Em suma: gente reprimida escrevendo fantasias fundadas na autorrepressão costumam render narrativas muito chatas e óbvias e previsíveis se você for só um pouquinho mais liberado. É quando o erótico fica bobo, por ser ingênuo. E quando a viagem pseudolibertária revela na primeira página o arcabouço conservador do qual não consegue se livrar. O homem rico, poderoso, charmoso e misterioso versus a moça ingênua de “50 tons” me fizeram parar na primeira página – o argumento não fica em nada a dever aos antigos livretos de coleções vendidas em banca, como Bianca e Sabrina. Na História de O, o boquete é frequentemente visto como uma humilhação. (Talvez para a minha avó, que em 1954 tinha 29 anos e era uma respeitável mãe de família num rincão agrário do Rio Grande do Sul. Mas não para mim.) A minha perspectiva sexual é outra. Bem, Anne Cécile tem o desconto da época em que viveu e a moral que enfrentou – inclusive dentro de si. Já E.L. James, a autora de “50 Tons”, não tem nenhuma desculpa – ela é só careta mesmo.

4. Sob a perspectiva de O, a melhor – e a pior – coisa que pode acontecer a uma mulher é ser amada por um homem. Tornar-se seu objeto de adoração – e de imolação. Ao mesmo tempo, esse é o grande objetivo feminino, segundo o livro: ser escolhida por um homem, viver à sombra do seu amor e do seu jugo. Isso justifica tudo. Como se as mulheres só encontrassem seu propósito e só estivessem plenas ao servirem a um macho. E mais realizadas elas serão quanto mais sem fronteiras for essa entrega. Na outra face dessa mesma moeda, é como se o amor masculino representasse sofrimento para as mulheres, como se a paixão dos homens fosse tanto mais sincera quanto mais violenta. Os caras que torturam O, no fundo, a amam, a idolatram. Tirar-lhe os pedaços significa adoração. Significa que a escolheram. Para O, o pior cenário é não depender de um homem. É não ter um homem a quem entregar a sua guarda, nem por quem ser violada. Ser desejada é tudo – mesmo quando o desejo lhe é corrosivo. Ou tanto mais quando ele é assim. “Ela não era mais livre? Sim! Graças a deus ela não era mas livre”, revela Anne Cécile sobre o sentimento de O diante do progressivo desmanche de si mesma diante do jugo de seu amante. E esse jugo é passado de uma mulher a outra. Não como maldição – mas como privilégio. A vida das mulheres não ganha sentido até que encontrem um dono para lhes escalavrar.

5. A todas essas O poderia simplesmente ir embora. Em determinado momento é dito a ela que enquanto ela ficar ela terá que se submeter a tudo, mas que ela não é obrigada a ficar. A incrível dependência emocional que ela nutre em relação a seu amante, ou em relação a qualquer homem que lhe der atenção, mesmo que a custa da sua integridade, é notável. (E faz pensar nos casos de violência doméstica, que pululam por aí, mundo afora, nos dias que correm, em que a mulher é a primeira a defender seu agressor, garantindo as condições para que a agressão continue.) René, seu amante, pede a sua permissão para lhe açoitar – quando sabe que a resposta será positiva. É um gesto de extrema covardia, do lado dele. E de extrema submissão, do lado dela. Trata-se do cúmulo do exercício de poder do mestre sobre o escravo – eu lhe ofereço a liberdade quando sei que você não vai embora.

6. Por que ela se submete parece ser a pergunta metafórica do livro: por que as mulheres se submetem a esse jogo de mestre/escravo? Por amor a um homem. “Eu te amo, faça o que quiser comigo mas não me deixe, pelo amor de deus não me deixe”, diz O. Ou, se extrapolarmos a questão de gênero: por que qualquer um de nós se submete? Talvez a obra pudesse simplesmente ser lida como um exercício sadomasoquista que agrada aos sádicos e aos masoquistas. Mas por que, entre os clássicos da literatura erótica, o sádico, o que dispõe do outro, o que detem o poder, é sempre o homem? Por que a mulher é sempre a criatura humilhada, despojada de sua dignidade, destroçada? Por que é sempre que ela que sente prazer com isso, com a autoaniquilação, enquanto o prazer masculino é sempre mais digno e confortável?

7. Será que o arquétipo sexual feminino é afinal definido pela submissão de ter sido historicamente o gênero mais fraco fisicamente? O gênero que com mais frequência tem que arcar com o risco sempre iminente da dor em uma penetração? Ou, ao contrário, será que as mulheres sempre estejam nessa posição por sua suposta maior resistência à dor, como o sexo destinado a parir outra pessoa através da sua própria genitália? Talvez homens e mulheres se orientem sexualmente, em algum nível, a partir desse padrão – os homens seriam igualmente escravos da tradição neandertal impressa em seu sistema límbico, de espalharem seus genes por aí de modo muitas vezes violento. Por esse raciocínio chegamos à ideia de uma dominação hormonal dos gêneros, cabendo sempre às mulheres a regulação de sexo – como a festa se dá sempre dentro dela, ela só deixaria entrar quem ela quisesse, quando ela quisesse, do modo que ela quisesse. Para o homem, historicamente, romper (literalmente) com essa tradição, e passar a regular o jogo sexual, tendo o que ele quer na hora em que ele desejar, é a obtenção do poder máximo. (A tradição é que o homem domine o jogo sexual, mas não que o regule.) Do ponto de vista feminino, quando a mulher entrega esse timão ao homem, não haveria presente maior, não haveria maior entrega nem maior prova de amor.

8. René, o amante de O, por quem ela é apaixonada, lhe doa a vários outros homens. E lhe concede a Sir Stephen, parceiro de René, que tem ascendência sobre ele – entre os dois há uma cumplicidade sexual cujos limites não ficam claros, mas que parecem ser bem elásticos. O se sente traída. Mas ela aceita ser dada de um homem a outro, como uma metáfora do aceite, pelas mulheres que dependem de seus homens, da traição a que são submetidas. Aceitar que René a renegue, a recuse e a humilhe é uma prova do amor que ela sente por ele. Submeter-se a outro homem indicado por seu homem é submeter-se a ele, e declarar – ou provar – seu amor a ele. Quanto maior a tortura, maior a chance de se provar como amante e como mulher. Eis a lógica de O – ela é uma mulher apaixonada e faz tudo por amor.

9. O experimenta o suposto prazer ser uma puta. Sim, a velha dicotomia entre santa e puta. Um negócio mais velho que Freud. E como toda mulher tem que ser santa, quem experimenta o sexo, gostando ou não, é uma puta. Para uma puta voltar a ser santa, é preciso trilhar o caminho da expiação. Daí, também, a tortura ser bem-vinda. O chicote e os ferros a purificam. O mesmo membro que a lastima a absolve. A luxúria da carne e a mortificação da carne, no mesmo gesto, que geram a puta, isolam a puta e fazem brotar, por entre filetes de sangue, a santa. Para brincar um pouco mais na poeira do freudismo (que sem dúvida deve ter influenciado muito Anne Cécile na década de 50): mais eros e menos thanatos, por favor.

10. O livro é centrado na mulher. E essa proeminência do feminino é paga com sangue. O homens não disputam esse proscênio, mas esfolam quem é colocado lá. Tudo gira em torno do gineceu – e por isso mesmo ele é açoitado sem dó pelo androceu a quem ele serve. Outro aspecto dessa coreografia que joga as mulheres no centro das atenções, como objetos a serem desfrutados, apenas para lhes tirar o couro, é a sua colocação como um anteparo necessário – mas ao mesmo tempo odioso – entre dois homens, funcionando como um amortecedor para o homoerotismo, sempre disfarçado de camaradagem e de cumplicidade de gênero, entre dois homens. Confira na próxima cena de dupla penetração, ou de ménage a trois de uma moça com dois homens, ou de gang bang, com a qual você topar – a cena tem sempre um subtexto de sexo entre homens, mediado fisicamente por um corpo feminino. O foco do interesse do caras é muito mais o relacionamento entre eles do que um interesse genuíno no sexo oposto. Quem gosta de mulher costuma tratar bem e quer exclusividade. O sexo entre homens, intermediado por uma mulher, é o máximo de intimidade e de intercurso que dois caras conseguem estabelecer entre si sem sair do espectro da heterossexualidade.

11. E de novo o sexo anal assume conotação de jugo, de controle, de humilhação e de um imposição de dor e de tortura de um amante a outro. Pier Paolo Pasolini já falava disso: o coito anal nunca é visto como um ato de amor, um gesto de carinho, uma brincadeira sexual legítima ou como um interesse ou uma forma de prazer para quem o recebe – ele é sempre representado de modo fascista e autoritário, como um domínio truculento de um parceiro pelo outro. Será que em 2014 isso é diferente? Lembro de uma representação um pouco diferente em Crash, filme de 1994, de David Cronenberg – mas mesmo ali o prazer da moça partia do seu gosto pela dor e não como uma carícia sexual delicada do seu parceiro.

12. A única expressão de amor próprio de O é se sentir atraída por outras mulheres – elas são a sua imagem, ela se vê nelas. A homossexualidade de O é um exercício de autoestima.

13. Ao final, O contempla a escravidão ou a morte. A liberdade não é uma escolha para ela. Para ela, é pertencer ou perecer. (Pensando bem, 1954 não envelheceu tanto assim…)

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segunda-feira, 17 de março de 2014 Sem categoria | 11:18

Na carreira, é preciso caminhar (sempre) para o lado onde seu coração bate

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Saiba onde bate o seu coração. E siga para lá.

Saiba onde bate o seu coração. E siga para lá.

Recebo em meu e-mail a seguinte mensagem:

“Cara, o Manual de Ingenuidades é realmente um achado na imensidão da Internet, com dicas valiosas.

“Estou num dilema parecido com os que você trata no blog. Tenho 25 anos, sou formado em Administração e atualmente trabalho num escritório de Engenharia. Me sinto angustiado quando penso em passar o resto dos meus dias profissionais aguentando chefes escrotos.

“Como o contrato de execução de uma obra dessa empresa de Engenharia está acabando, estou prestes a ser mandado embora e perdido, não sei que rumo tomar. Não sei se sigo na área de Administração, visando encontrar algo que valha a pena; não sei se invisto em concursos públicos; não sei se ouço meus instintos e inicio uma nova faculdade (Jornalismo no caso, área que você conhece bem pelo que vi), que oneraria tempo e muito dinheiro.

“É tão difícil achar pessoas dispostas a dar conselhos e com propriedade e conhecimento de causa, por isso achei seu blog sensacional. Me dá uma luz aí, cara…”

Como sempre, escrevo abaixo o que me parece. E convido a nossa comunidade de ingênuos a aportar suas visões também.

Acho que a questão tem dois lados. O primeiro: você tem um emprego que não lhe satisfaz. O segundo: você está prestes a perder esse emprego – o que cria para você a chance de retomar a carreira a partir de outro ponto.

Ser um administrador numa empresa de engenheiros pode representar um teto mais baixo à sua trajetória profissional, uma vez que você não trabalha na atividade fim da empresa – nenhum cliente dessa empresa vai contratá-la ou demiti-la pela qualidade dos seus fluxos administrativos, mas sim pela excelência ou não da sua engenharia. Isso, inevitavelmente, erode um pouco do seu valor como profissional dentro da companhia. Por outro lado, se você for um pouco mais acomodado ou menos ambicioso, essa pode ser uma boa posição – uma lugar mais tranquilo para trabalhar, operando nos bastidores, na gestão da empresa, enquanto outros é que tem que vender e depois entregar bem aquilo que venderam.

Se você está insatisfeito com sua ocupação atual, o fim que você está prevendo para o seu contrato é uma benção – uma chance de mudar para melhor. Por outro lado, se você está insatisfeito porque está prestes a perder o emprego, vale uma conversa com seu chefe, para expor a ele o quanto você gosta do que faz e o quanto gostaria de poder continuar contribuindo com aquela organização.

Ah, sim. Você fez uma menção genérica a “chefes escrotos”. Você está se referindo a seus chefes específicos nessa empresa ou à situação de ter chefes em geral? Se você não gosta do seu chefe, veja se não há outros bons candidatos a chefe na empresa em que você trabalha. E aí mude de chefe. (Você tem razão: a carreira é muito curta para trabalhar com chefes ruins.) Se o problema estiver direcionado a todos os executivos dessa empresa, aí sim, troque de empresa – no seu ramo de atuação atual, inclusive, se for o caso. (Não confunda pessoas com instituições, nem tome um ramo de negócios pela experiência que você teve com uma empresa.) Agora, se você simplesmente não gosta de ter chefes, aí o seu caminho talvez seja o do empreendimento. Lembrando sempre que lá você não terá chefes mas terá sócios e clientes e parceiros comerciais – o que pode ser ainda pior, em termos de relacionamento, em alguns casos. De um jeito ou de outro, viver e trabalhar implica aprender a lidar com gente e com fluxos poder – ao lado, acima e abaixo da gente.

Quanto à segunda questão que você coloca – a chance de recomeçar. Se você gosta do que faz, e não for possível continuar nessa empresa, tente uma posição similar noutra empresa do ramo. Procure os principais concorrentes de organização, mostre o que você fez e o que você tem condições de construir com eles. Se você gosta da empresa mas não gosta do que faz, tente uma nova posição dentro da organização. Se você não gosta do que faz e nem da empresa, aí, antes de saltar, será importante compreender o que lhe faria mais feliz. Nesse caso, a demissão que você prevê será uma bem vinda oportunidade para repensar sua carreira. O que significa, sempre, pensar sobre você mesmo. Auscultar seus desejos, compreender seus gostos, traçar planos, alinhar expectativas e estabelecer metas consigo mesmo. Trata-se do velho e bom exercício de autoconhecimento do qual com frequência falo aqui. Afinal, para mudar é preciso saber antes aonde você quer ir.

Uma vez definida essa lista final de opções, atire-se a elas. Teste. Experimente. Certas coisas a gente só aprende fazendo, só aprende vivendo. Com leveza, sem peso na mente ou nos ombros. Ajuda se você pensar que a vida profissional não é uma decisão férrea que tomamos um dia e da qual não podemos nos afastar. Ao contrário: a carreira é feita de projetos, de ciclos que tem começo, meio e fim, e que podem, tranquilamente, representar as coisas que gostaríamos de fazer, mesmo que elas não tenham aparentemente conexão entre si, nesse curto espaço de tempo que temos para produzir alguma coisa enquanto nos mantemos vivos e ativos sobre o planeta.

Mais uma tentativa em Administração? Uma experiência no Jornalismo? Uma passagem pelo serviço público? Tudo é válido. Desde que você caminhe para o lado onde seu coração está batendo naquele momento. Quando ele mudar, mude também. Nunca se separe dele. Boa sorte. Seja feliz.

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terça-feira, 11 de março de 2014 Sem categoria | 09:08

Eu não fui feliz, meu filho. Então você está proibido de sê-lo.

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Sim, garoto, você é. Mesmo que seu pai e sua mãe achem que não. Crescer significa também enfrentá-los.

Sim, garoto, você é. Mesmo que seu pai e sua mãe achem que não. Crescer significa também enfrentá-los.

Esses dias ouvi um pai ceifando opções de carreira numa conversa que estabelecia com o filho adolescente com o vaticínio: “isso não dá dinheiro”.

Não era bem uma conversa, era mais um monólogo – o menino tentava construir uma frase, expressar um desejo, e o pai descia a marreta paterna, embalada nesse raciocínio dinheirista. Logo ele que não era assim a pessoa mais feliz do mundo no trabalho – não tinha uma carreira, tinha um emprego que lhe rendia algum dinheiro e quase nenhuma felicidade profissional.

É curioso como temos a capacidade de reproduzir como herança imposta aos nossos filhos as coisas que deram menos certo para a gente. Quase como uma sabotagem à geração seguinte – “eu não fui feliz, eu não segui minhas paixões, eu não ouvi meu coração, e tratei de obedecer meus pais, e agora você me deve tudo isso. Não ouse se realizar profissionalmente! Especialmente em alguma coisa que eu não entenda ou que não me dê orgulho”.

Esse mesmo pai, ou essa mesma mãe, segue adiante em seu modo de pensar: “Não ouse se realizar afetivamente num modelo que não seja o matrimônio heterossexual – porque eu não saberia como contar isso para os meus amigos e teria vergonha de você, além de uma sensação insustentável de ter falhado em passar os valores da geração que me precedeu para a geração que me sucederá”. Não importa que esses valores sejam velhos de muitas décadas e não representem mais a vida como ela acontece hoje. “Não ouse ter uma religião que não for a minha (pior do que tudo é não ter crença alguma) ou torcer para um time que não seja o meu ou ignorar qualquer régua fundamental à minha vida – ela deveria também reger a sua também”.

Eu, em silêncio, pensava no quanto divirjo daquele pai. Só para ficar no campo profissional: o principal objetivo de uma carreira não é ganhar dinheiro – é obter o máximo de satisfação consigo mesmo, com aquilo que você faz, com aquilo que você é. Uma carreira existe para gerar o sentimento de realização, para criar na pessoa a sensação de que ela está construindo uma obra relevante para si mesmo e para os demais. Dinheiro é consequência disso. Ele vem depois, como recompensa – não pode vir antes, como critério de escolha. A grana não é um detalhe desimportante. Ao contrário: ela é fundamental. Mas ele vem, de um jeito ou de outro, em maior ou menor medida. E ela não é a medida de todas as coisas. Nem mesmo o critério mais importante de êxito na vida. Então por que não gerar as condições para que o dinheiro seja gerado a partir de uma situação que permita a você – ou ao seu filho! – ser feliz? Fazer o que se gosta sem ganhar dinheiro pode ser uma situação bem desagradável. Muito mais desesperador é ganhar dinheiro com algo que você não tem o menor gosto de fazer.

A fala daquele pai, podando seu filho na raiz, tentando manter o garoto dentro do molde de vida que ele considerava o mais apropriado, expressava um desejo paterno de que o menino se desse bem na vida. Mas expressava, de modo muito mais eloquente, os medos que assombravam aquele pai. E as suas dificuldades para deixar que o garoto vivesse a sua vida do jeito dele – um jeito que talvez fosse completamente diverso do seu. E a arrogância de quem se agarra a clichês em franca obsolescência e acha que sabe de tudo melhor do que todo mundo – especialmente quanto o assunto é a vida dos outros.

O molde comportamental que armamos para nós mesmos, como uma armadilha mental, e que adoramos passar adiante, inclusive como forma de validarmos o molde que utilizamos para organizar nossa própria vida, é de um reducionismo atroz. Nesse processo em que uma geração quer entalhar a outra à sua imagem e semelhança – numa exercício de autoafirmação, por mais infelizes que tenhamos sido em vários aspectos de nossas vidas –, eliminamos as diferenças, as individualidades, os desejos e o sonhos particulares de quem só está começando a viver.

Para aquele pai, o molde era um uniforme corporativo – cada vez mais gasto, diga-se. Antigamente, a tríade respeitável girava em torno de medicina/advocacia/engenharia. Quem não estava aí, estava fora. Hoje, a esperança dos pais reside no quadrilátero administração/marketing/engenharia/economia. Essas seriam as chaves, imaginam eles, para encontrar um lugar ao sol no mundo corporativo. Como se só houvesse essas opções no mundo corporativo. Como se o mundo corporativo fosse a única opção de construção de um carreira digna e feliz. Como se essa fosse, sem sombra de dúvida e sem possibilidade de discussão, a melhor opção.

A falta de visão, ou de coragem, daquele pai, somada a sua soberba em impor a sua visão ao filho, de cima para baixo, sem possibilidade de arguição, numa catequese covarde e injusta, fechava portas para o garoto em vez de abri-las. O pai não se colocava como facilitador, mas como inquisidor. Um situação extremamente com a maior cara de novela das 7, mas que infelizmente continua acontecendo a rodo por aí, como um clichê lamentável.

Ou você cria seu filho para que ele tome decisões autônomas, incluindo aquelas que negam veementemente o seu jeito de fazer as coisas, ou você estará sendo um péssimo pai. Não respeitar as escolhas do seu filho é desrespeitar seu filho. E desinstrumentalizá-lo diante da vida e, pior, diante dele mesmo.

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quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014 Sem categoria | 12:19

As camisetas das Adidas nos representam

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O Narciso às avessas acha feio tudo aquilo que é espelho.

O Narciso às avessas acha feio tudo aquilo que é espelho.

Com relação a essa polêmica das camisetas da Adidas – que enorme bobabem!

Não é apenas que nós sejamos carolas – e, como qualquer carola, hipócritas. É que somos cafonas. E, como país, nos apequenamos a questões irrisórias – talvez para deixarmos de olhar para as questões que realmente importam. Essa postura é tanto do governo, que fez uma moção contra um par de camisetas, quanto de parte da imprensa e dos comentaristas, que se ofenderam com elas.

Como sempre, nos incomodamos com a representação e não com a realidade. Nos indignamos com o modo como somos vistos, especialmente por estrangeiros – dos episódios dos Simpsons e de South Park citando o Brasil às declarações bocós de Sylvester Stallone sobre o país –, e não com as nossas mazelas diárias, com as quais sempre damos um jeito de conviver numa boa. Como se pudéssemos impor uma censura ao que pensam sobre nós. Como se precisássemos os posicionar a cada vez que nos citassem.

Temos coisas mais importantes a fazer – uma Copa e uma Olimpíada, por exemplo. Milhares de quilômetros de metrôs e centenas de hospitais equipados, se você preferir.

Uma das camisetas da Adidas faz uma referência a “se dar bem” no Brasil – “score” significa tanto marcar um gol quanto ficar com alguém. E há uma moça de biquíni, segurando uma bola de futebol, com o Pão de Açúcar por detrás. (Caramba, não houve uma só viagem que tenha feito quando solteiro em que não tenha sonhado em “score” uma local – de Capão da Canoa a Nova York. Que mal há nisso?)

A outra T-Shirt escreve no peito “I love Brazil”, com um coração estilizado na forma de um bumbum de biquíni no lugar da palavra “love”. (Uma declaração de amor, note.)

A indignação oficial é que essas imagens estariam reforçando a ideia de que o Brasil é um destino para o turismo sexual.

A indignação velada é a de gente que se sente desconfortável ao ver o país ser identificado com bundas expostas e mulheres seminuas.

Eu tenho algumas coisas a dizer sobre isso:

1. Primeiro: as camisetas não são ofensivas. Não foram feitas para dilapidar a imagem do país. Não contém uma mensagem odiosa em relação ao Brasil. Elas tocam num melindre nosso, numa questão nacional mal resolvida – mas a Adidas não tem nada a ver com isso.

2. Se há um sexismo nas camisetas, ao enfocar somente as mulheres, e tomá-las como objetos, corrijamos essa estreiteza fazendo outras camisetas que impliquem mais diversidade – e não banindo essas. Quem sabe uma camiseta em que “se dar bem” no Brasil seja representado também por um garotão de abdômen sarado? O Rio é uma cidade gay friendly. Assim como Porto Alegre. São Paulo caminha para isso. O que é ótimo. Se estamos falando em construção de símbolos nacionais, em diferenciais competitivos que nos posicionem bem, como nação, no imaginário internacional, então a tag “gay friendly” é muito interessante. Além de equilibrar o sexismo contido nas imagens de mulheres pouco vestidas.

3. Uma das coisas boas do Brasil é que somos mais “físicos” do que outros povos, nos tocamos, nos abraçamos e nos beijamos mais, e expomos um pouco mais o corpo em público. No entanto, isso jamais no livrou de sermos uma sociedade cheia de recalques sexuais. De fato, as mulheres brasileiras vão à praia mais vestidas do que as europeias, por exemplo. O topless, no Brasil, ainda é um escândalo. E o fio dental, como bem pontuou uma vez um amigo, é muito mais um símbolo da nossa dificuldade de lidar com outras formas de sexo que não sejam o papai-e-mamãe, uma espécie de desejo reprimido em relação ao sexo anal, do que propriamente uma celebração das nossas liberdades sexuais.

4. Mesmo careta e machista, ou exatamente por conta dessa tradição, conseguimos criar uma moda praia matadora – e a indústria de lingeries mais sexy do planeta. E isso é bom. Mesmo que não seja totalmente verdade, e que exista mais como aspiração do que como prática, mais como fetiche do que como realidade diária, não deveríamos nos envergonhar desse verniz de sensualidade que jogamos sobre nós mesmos. E os estrangeiros não tem culpa de acreditar nisso e de potencializar esse mito – que nós mesmos criamos. Deve ter causado espanto aos designers que conceberam as camisetas na Adidas a reação que elas causaram aqui no Brasil. Imagino os caras pensando: “Mas por que eles se ofenderam?”. Afinal, eles retrataram o que se vê nas praias. O que se verá à exaustão nos desfiles de Carnaval. Eles devem estar achando que temos dupla personalidade. E nós, aqui do nosso lado, deveríamos estar preocupados, de verdade, com o fato de que o mundo está descobrindo nosso pequeno segredo – o Brasil não é bem resolvido sexualmente coisa nenhuma! Ao invés de celebrar corpos nus, bonitos e bronzeados, como parece à primeira vista em qualquer calçadão ou parque do país, os brasileiros na verdade se ofendem com a nudez e não querem ser associados a uma ideia de sensualidade. Cá entre nós: com essa ojeriza à pele exposta e as curvas desnudas, não seria melhor que adotássemos logos burcas, ao invés de sungas e cortininhas? Quem nos dera sermos de fato um paraíso sexual. Seria bom para nós, nativos. E bom também para quem nos visitasse. Estamos longe de ser uma Suécia tropical, infelizmente. Estamos mais para o Alabama. Ou para Lagos.

5. Com relação ao turismo sexual. Se estivermos falando de mulheres e homens maiores de idade, e que estejam por vontade própria colocando seus favores sexuais à venda, ninguém tem nada a ver com isso. A função do governo, nesse caso, é garantir que atividade seja respeitada, que não implique violência ou exploração econômica, nem para quem vende nem para quem compra esses serviços. Trata-se de uma profissão. Que deveria ser regulamentada – uma das batalhas do surpreendente deputado Jean Willys. Não é demérito para o país ser um destino sexual procurado. Desde que não envolvida menores de idade ou coerção de nenhuma natureza, trata-se de mais uma possibilidade que o país oferece aos turistas que o visitam.

6. Eu adoro camisetas. Mas não usaria as Adidas porque não são bonitas nem inteligentes o suficiente – reproduzem clichês de modo graficamente pouco interessante. Mas não vejo nenhum motivo para celeuma – ainda mais envolvendo autoridades federais. Esse para de T Shirts não arranha em nada nossa imagem internacional – ao contrário de turistas sendo estuprados dentro de Kombis, de gente sendo queimada viva dentro de ônibus, de cadáveres amanhecendo decapitados nas ruas das favelas, de pais de família tomando tiros à queima roupa dentro se seus carros, num sinal vermelho, com seus filhos no banco de trás. Isso, sim, prejudica a imagem do país.

7. Por fim, digo que, se quisermos criar novos símbolos para o país, que o façamos na esfera da realidade – para depois se transformarem em representação. Democracia racial. Democracia religiosa. Democracia sexual. Relações sustentáveis com o trabalho, com a natureza, entre as pessoas. Tem tanta coisa para construirmos. Coisas que um dia até podem nos representar numa camiseta da Adidas – desde que as construamos primeiro.

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segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014 Sem categoria | 11:40

Faltam 100 dias para a Copa. Tá tudo em cima?

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Fuleco, meu querido Tatu: sai da toca! (Ou então se ajeita aí que eu quero entrar!)

Fuleco, meu querido tatu: sai da toca! (Ou então se ajeita aí que eu quero entrar!)

A Copa suscitou entre nós, brasileiros, dois sentimentos.

O primeiro, logo que fomos escolhidos para sediar o evento, era “eu preciso enriquecer com a Copa”. Espalhou-se entre muitos de nós uma ansiedade parecida com aquela que havia no final dos anos 90 em relação à internet, quando as pessoas se questionavam pelos corredores – “o que eu vou dizer aos meus netos quando eles em perguntarem o que eu estava fazendo na revolução digital?” A bolha cresceu e estourou, a revolução digital se mostrou um fenômeno de longo prazo, e não um mera corrida do ouro, e essa certamente não é uma pergunta – ou cobrança – que nenhum de nós ouvirá dos seus netos. A Copa, há um par de anos, gerou a mesma sanha extrativista em vários patrícios – como eu faço para aproveitar esse momento histórico e ficar rico?

O segundo sentimento é esse recente – e assustador – “Não vai ter Copa”. Trata-se de uma postura nascida nas manifestações de junho, quando a sociedade civil redescobriu sua força e foi as ruas – no que foi imediatamente seguida por bandos de arruaceiros dos mais variados tons de preto. Os cidadãos que trabalham, criam filhos, estudam, pagam impostos, sonham com uma vida melhor e com um país melhor, voltaram a ter medo de sair às ruas – não tanto por causa da polícia, mas muito mais por conta dessas figuras encapuzadas, armadas de uma inconsequência juvenil e violenta, dispostos a quase tudo por quase nada, que aparecem não se sabe de onde e que parecem ter uma compulsão por quebrar vidraças e – marca registrada nacional – incendiar ônibus.

Entre a disposição de encontrar um meio para ganhar dinheiro de modo rápido e oportunista, e a disposição de se posicionar de modo igualmente oportunista para causar destruição, acobertados pela multidão bem intencionada e relativizados pela discussão política travada acerca desses atos violentos, não ouvi em nenhum momento alguém dizer – “Vamos fazer uma Copa sensacional!” Salvo projetos esparsos, como o bravo Imagina na Copa, esse sentimento de usar o evento apenas para produzir um grande evento nunca existiu entre nós. Nem entre patrocinadores, nem no governo, nem em outros negócios e iniciativas. Simplesmente não foi esse o espírito nacional que aflorou diante da Copa. Fazer a lição de casa, o arroz com feijão bem feito (e quem sabe até fritar um ovo e jogar por cima), entregar aquilo que prometemos, nos prepararmos condizentemente, arrumarmos o país como um anfitrião que se arruma para receber em casa – esse sentimento não floresceu entre nós. O que diz muito sobre quem somos. E sobre o que podemos como povo e como nação.

O que fizemos para a Copa? Que ganhos obtivemos? O que vamos oferecer a quem se aventurar entre nós – dizem que serão 3 milhões de turistas nacionais e internacionais rodando por aqui – ao longo daqueles 30 dias que começam no início de junho? Treinamos taxistas? Arregimentamos voluntários? Estabelecemos um hotline nacional para o atendimento imediato de turistas em apuros – na língua deles? Alguém está ensaiando direito uma cerimônia de abertura bonita, bem concebida?

Tirando um ou outro superfaturamento seguido de atraso e seguido, por sua vez, de uma suplementação de verbas – o que até Pero Vaz de Caminha já sabia que ia acontecer -, e tirando uma devolução dos quartos de hotel reservados aqui e ali, e tirando algumas reformas pontuais realizados num e noutro aeroportos, o que fizemos para que a Copa do Mundo no Brasil fosse um evento inesquecível, um marcador em nossa história – como as Olimpíadas de Seul, em 1988, foram para a Coreia -, ou então uma demonstração internacional de nossa capacidade de organização e de entrega, e de nossa confiabilidade como país – como os Jogos de 2012 foram para a China?

Alguns países transformaram esse tipo de oportunidade para amalgamar a sociedade e gerar um momento de orgulho nacional. Nós, menos por pirraça do que por inação, estamos nos encaminhando para gerar um momento de vergonha nacional. O que poderia ser uma oportunidade incrível de consolidação de mudança da marca Brasil, gerando dividendos para todos nós, aqui dentro e lá fora, pode virar um fiasco e um desastre inacreditáveis. (Com direito a bis em 2016.) Mas talvez essa seja a única causa realmente capaz de unir todos os brasileiros – o sentimento de incompetência, a dor de cotovelo diante do fracasso que nós mesmos carpimos, uma espécie de vergonha alheia de nós mesmos.

A Copa e a Olimpíada sempre correram o risco de serem vistas, só para variar, como mais uma oportunidade para o assalto ao erário e para o locupletação imediata de alguns. Alguém lembra das contas do Panamericano do Rio em 2007? Pagamos várias vezes mais para ter um resultado medíocre. Reformamos duas vezes o Maracanã em menos de cinco anos! (Aliás, aquele poderia ser o slogan da administração pública brasileira. Nada nos define melhor.) No entanto, nem isso parece que conseguiremos alcançar com a Copa. Estamos simplesmente batendo cabeça. Parece que viramos as costas para o evento. Toda a sociedade. O pessoal da velha economia, da nova economia, os hipsters, os coxinhas, todo mundo. Como se não quiséssemos nos envolver, como se a Copa fosse finalmente uma notícia ruim, um embaraço, uma bomba relógio da qual preferíssemos guardar distância. O que também diz muito das expectativas que nós temos acerca do nosso próprio trabalho. Quem vai acreditar em nós quando nós mesmo não acreditamos, quando fazemos tudo para confirmar as profecias autorrealizáveis de tragédia que contam por aí a nosso respeito?

No final, além de alguns estádios de padrão Fifa (onde, tomara, os lugares marcados nos ingressos comecem a ser finalmente respeitados no país do “eu vi primeiro”), e de alguns aeroportos recauchutados, o que a Copa vai gerar? Que legado ela vai deixar ao Brasil? Não construímos hotéis, nem o trem bala Rio-São Paulo, nem metrôs e estacionamentos perto do estádios. O meu querido Beira Rio tem membranas translúcidas mas ainda não tem calçadas pavimentadas ao redor! É como se o Allianz Arena sumisse de Munique, na Alemanha, e se materializasse de repente na favela do Buraco Quente, em Porto Alegre, sobre a lama. Eis o ponto: nós não fizemos nada. Perdemos tempo. Perdemos a oportunidade. Ficamos parados. Por falta de planejamento, de organização, de tino realizador, de senso de responsabilidade, de capacidade de nos entendermos entre nós mesmos e coordenarmos esforços para um bem comum. Nossa incompetência de gerir essa Copa tem sido a nossa incompetência histórica de gerir a nós mesmos como sociedade.

Eis o que o espelho está nos mostrando: fazemos sempre o mínimo necessário, na última hora. Se colar, colou. Não temos capricho, nem orgulho de fazer bem feito. Que nos importa defender a honra ou preservar a reputação? Somos lenientes, operamos sempre pelo provisório e não pelo definitivo. Nos orientamos por qualquer nota, pelo assim já está bom. Procrastinamos, não somos previdentes, não gostamos de assumir compromissos. Afinal, somos bom de ginga, temos samba no pé, adoramos o improviso, podemos sempre sacar o jeitinho brasileiro do bolso.

Um dia talvez percebamos que, se fizéssemos as coisas direito, com planejamento, distribuindo e cobrando responsabilidades, nos organizando de modo eficiente, ganharíamos muito mais. (Ainda que alguns, que hoje lucram muito com a bagunça, fossem ganhar um pouco menos.) Assim pagaríamos menos taxas de urgência. Assim viveríamos menos sobressaltos. E sobrecarregaríamos menos as entidades de várias religiões com nossas preces de última hora – sempre desesperadas e arrependidas.

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terça-feira, 18 de fevereiro de 2014 Sem categoria | 11:12

Sobre o medo

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O medo é uma prisão mental cuja chave fica no bolso do prisioneiro.

O medo é uma prisão mental cuja chave fica no bolso do prisioneiro.

Medo de não vender e falir.

Medo de vender e não conseguir entregar.

Medo de não ser chamado.
Medo de ser chamado e decepcionar.

Medo de sair do lugar – e perder o lugar.
Medo de nunca sair do lugar.

Medo de que o telefone toque – e a notícia seja ruim.
Medo de que o telefone deixe de tocar.

Medo de dizer a verdade e ofender irreversivelmente.
Medo de reprimir a verdade e criar um monstro dentro de mim.

Medo de dar demais e desvirtuar o outro na sua relação comigo.
Medo de dar pouco e virar um sovina, um austero, um sujeito árido e frio e só.

Medo de prometer e não cumprir.
Medo do compromisso.
Medo de não me comprometer com nada, nunca – e virar um tipo pusilânime.

Medo de morrer hoje. Ou amanhã de manhã.
Medo de viver mais tempo do que a minha condição de viver bem.

Medo da violência que campeia ali na esquina, dizimando integridades cada vez mais perto de mim.
Medo de sentir tanto medo, de abraçar a paranoia, de me deixar paralisar pela metade eternamente vazia do copo. (Não importa quando o enchamos, torrencialmente às vezes, a porra desse copo sempre vai ter uma metade vazia zombando da gente.)

Medo de ficar sem dinheiro.
Medo de virar um escravo do dinheiro.

Medo de ficar sozinho.
Medo de estar acompanhado e ainda assim me sentindo infeliz, e gerando infelicidade. Há um lugar dentro da gente onde ninguém no alcança. Nem nós mesmos.

E o que é o medo? Uma prisão mental cuja chave fica no bolso do prisioneiro. Uma prisão mental em que carcereiro e encarcerado são a mesma pessoa.

 

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segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014 Sem categoria | 09:13

O perfeito idiota de classe média brasileiro – parte 2

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A pobreza no Brasil não é uma circunstância, uma situação conjuntural a que todos estamos expostos - é uma condição estrutural que rotula e afasta milhões de pessoas, consideradas para sempre subcidadãs. O PICMB morre de medo disso. E adora rir disso.

A pobreza no Brasil não é uma circunstância, uma situação conjuntural a que todos estamos expostos – é uma condição estrutural que rotula e afasta milhões de pessoas, consideradas para sempre subcidadãs. O PICMB morre de medo disso. E adora rir disso.

O texto de maior sucesso nos cinco anos de vida do Manual viralizou semana passada – O perfeito idiota de classe média brasileiro.

O número de leituras foi de pouco mais de 1 000 (um belo número para os padrões do Manual) para quase 9 000 no espaço de alguns dias. E continua subindo. Nada mal para um blog independente. O detalhe é que essa é a segunda curva de um texto que foi publicado originalmente em 9 dezembro. Impossível precisar o que detonou essa ignição ocorrida de repente, dois meses depois. Coisas da internet.

Acho que o texto tocou num ponto importante – um padrão de comportamento que transforma muitos de nós em seres com um cartão de crédito no bolso e nenhuma ideia na cabeça. Aterrissei essa atitude na classe média – porque é ali, nesse terreno largo, em que o poder aquisitivo nem sempre é construído par e passo com a instrução, que ela pode ser encontrada com mais clareza e fartura. Mas é claro que esse comportamento acomete pessoas em outras camadas sociais. Ele pode ser visto na aspiração dos pobres e também no descaso dos ricos brasileiros.

O PICMB se traduz numa pessoa mimada, indolente, incivilizada, pouco cidadã. Que se escuda atrás de marcas e de produtos caros – porque, de resto, tem pouca coisa a oferecer. É um praticante e uma vítima da reificação – o processo de coisificação das pessoas, dos sentimentos, dos relacionamentos. O PICMB é brega no uso do dinheiro. E cafona no que pensa e no que diz – porque não se preparou para exercer da melhor maneira as suas conquistas financeiras. Acha que não precisa fazê-lo. Ele está interessado em ter, não em ser. Ou: ele só considera que é na medida em que tem.

Há outros dois aspectos que ajudam bem a caracterizar o PICMB – que, perceba, é muito mais uma função do que uma estrutura, muito mais um software do que um hardware, muito mais um sistema ético do que um determinado grupo de pessoas.

O primeiro deles: o medo bizarro da classe média brasileira de parecer pobre.

E o modo mais direto de não parecer pobre, de afirmar ou de fingir riqueza, é pagar caro. A visão que nós temos de um cara rico, no Brasil, não é a de um cara que trabalha e que economiza – mas de alguém opulento e perdulário. Por isso os preços aumentam à nossa volta – e o PICMB acha bonito pagar por eles. Pagar menos é erodir valor. Pagar caro, ao contrário, deixa todo mundo ver que você não é pobre. O tipo de consumismo que nutrimos entre nós tem esse viés: as coisas tem que ser caras. O uso grosseiro de marcas famosas vem daí – elas não são nada além de uma sinalização pouco sutil para todos os outros de que você tem dinheiro para torrar naquilo. (Mesmo os produtos comprados em liquidações, nos outlets de Orlando, que lotamos com nossa voracidade vazia, não se despem dessa função, ao gritarem: “eu estive em Orlando, você não”. A exclusividade é uma forma de segregação social e econômica que nós adoramos praticar.) Não raro, o único valor de um produto é esse: ser caro. Ele nem é tão legal, mas você usa porque todo mundo sabe que ele custa os olhos da cara. Ninguém acha que você é um tremendo pato agindo desse jeito – todo mundo acha você que é bacana. Nós devotamos ao PICMB uma admiração (sempre banhada em veneno) que lhe faz vibrar por dentro.

O PICMB acha que reclamar dos preços, ou discuti-los, ou pechinchar, ou procurar pelas melhores ofertas, é coisa de pobre. E nós temos horror a isso – “pobrismo”. Trata-se, obviamente, de um trauma terceiro-mundista, de quem foi pobre por muito tempo, e de quem ainda convive muito de perto com a pobreza. Escandinavos, holandeses, belgas e suíços, por exemplo, não tem essa dicotomia instalada dentro de si. Por isso se dão ao luxo de dar mais valor ao seu dinheiro e de não enxergar sentido na ostentação. Nós, ao contrário, respiramos essa dicotomia. Nosso jeito de lidar com ela é ampliar, entre nós, o contraste entre quem tem e quem não tem, ao invés de tentar incluir todo mundo para que mais pessoas possam ter. Vivemos para mostrar. Para agredir o outro com aquilo que logramos adquirir. Por isso, para o PICMB, a regra é comprar sem olhar. Essa irresponsabilidade com o dinheiro, essa falta de amor à economia, nos define. Os americanos, para não irmos muito longe, respeitam muito cada dólar que tem na carteira. Por isso o dólar é valorizado. A valorização cambial de uma moeda começa na valorização que os usuários fazem dela individualmente, dentro do seu próprio bolso. Como os americanos, nós elegemos o dinheiro como um deus – só que um deus que precisa ser imolado diariamente no fio do cartão de crédito internacional com limite estourado.

Esse pudor de parecer mesquinho é o que permite que os estacionamentos e as sobremesas, para citar dois preços que inflacionaram barbaramente nos últimos anos, aumentem descaradamente numa cidade como São Paulo. A gente paga. Então a primeira hora do valet em qualquer lugar, de 8 ou 10 reais, passou, num par de anos, para 20 ou 25 reais. Porque a gente paga. Por isso um taça minúscula de qualquer coisa doce após uma refeição passou de 10 ou 12 reais, para 25 reais em qualquer restaurante bem posicionado na cidade. Porque a gente paga. A gente não reclama – porque regatear preço é coisa de pobre. Por isso o governo aumenta seus gastos e a nossa carga tributária todo ano e tudo bem: a gente continua pagando. As tungadas vem de todo lugar – do IPTU ao serviço de controle da emissão de gases do seu carro (uma piada de humor sombrio aplicada aos paulistanos todo ano). A gente paga. A gente assente. Enquanto isso nos separar daquelas pessoas que não podem pagar, continuaremos pagando – porque isso nos faz sentir bem.

O outro aspecto que ajuda a caracterizar o comportamento do PICMB é um individualismo atroz, que embute um total descaso pelo outro e que obstaculiza a construção de uma Nação com N maiúsculo sobre esse país com p minúsculo.

Trata-se de tentar sempre garantir privilégios individuais imediatos ao invés de crescer como sociedade a médio prazo. A magistrada que bloqueou recentemente, no bairro do Humaitá, no Rio, um trecho de calçada em frente à sua casa, para poder manobrar com o seu carro, é a cara desse Brasil. Somos um país de posseiros. O país da apropriação indébita. Ao invés da soma dos interesses privados gerarem o bem público – afinal, é do interesse comum, de cada um de nós, que seja bom para todos –, a gente parte para o cada um por si e para o quem pode mais chora menos. Assim não construímos sistemas – porque sistemas dependem de que cada parte funcione por si só mas também para o todo. A gente não liga para o todo – temos a ilusão de que se resolvermos o nosso está bom. (Enquanto eu estiver bem dentro do meu carro, que se exploda o metrô!) Adoramos prerrogativas, vantagens especiais, contarmos com mais direitos do que os outros. Somos fascinados por camarotes, por bocas livres, por crachás que deem acesso a lugares onde os outros não chegam. Eis o ponto: nada é mais distante, insignificante e sem valor para um brasileiro do que outro brasileiro. Daí a vida valer tão pouco por aqui. O outro não vale nada. Amarra o ladrão no poste e lincha. Problema dele, não meu. O PICMB cuida de si e dos seus – e cada um que cuide de si. Não existe solidariedade no Brasil. Nem o pensamento coletivo, o sentimento de conjunto. Somos um empilhamento mal combinado de milhões de indivíduos que só querem saber de si mesmos. O PICMB é um fruto e um arauto disso.

Daí utilizarmos o acostamento descaradamente. Trata-se de um espaço coletivo – que o PICMB transforma em espaço particular, à revelia dos demais. Daí a luz amarela do semáforo no Brasil ser um sinal para avançar, que ainda dá tempo – enquanto no Japão, por exemplo, é um sinal para parar, que não dá mais tempo. Nada traduz melhor nossa sanha por avançar sobre o outro, sobre o espaço do outro, sobre o tempo do outro. Parar no amarelo significaria oferecer a sua contribuição individual, em nome da coletividade, para que o sistema funcione para todos. Uma coisa que o PICMB prefere morrer antes a ter de fazer.

Por fim, um teste simples para identificar outras atitudes que definem o PICMB: liste as coisas que você teria que fazer se saísse do Brasil hoje para morar em Berlim ou em Toronto ou em Sidney. Lavar a própria roupa, arrumar a própria casa. Usar o transporte público. Respeitar a faixa de pedestres, tanto a pé quanto atrás de um volante. Esperar a sua vez. Compreender que as leis são feitas para todos, inclusive para você. Aceitar que todos os cidadãos tem os mesmos direitos e os mesmo deveres – não há cidadãos de primeira classe e excluídos. Não oferecer mimos que possam ser confundidos com propina. Não manter um caixa 2 que lhe permita burlar o fisco. Entender que a coisa pública é de todos – e não uma terra de ninguém à sua disposição para fincar o garfo. Ser honesto, ser justo, ser pontual. Se tudo isso lhe for intragável, não tenha dúvida: você está se transformando num PICMB. Reaja.

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