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segunda-feira, 14 de abril de 2014 Sem categoria | 13:48

Pequeno Glossário (atualizado mas provisório) de Abismos Semânticos Sexuais

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Yes, by all means!

Yes, by all means!

Depois do relativo sucesso do Pequeno Glossário (atualizado mas provisório) de Abismos Semânticos Políticos, reúno aqui mais algumas ideias sobre termos que usamos à larga – muitas vezes sem nos darmos conta do que eles significam de verdade.

CHUPA!

Uma das coisas mais caretas e sem sentido que há é dizer “Chupa!” para alguém que você quer sacanear ou ofender. Porque é bom chupar. É ótimo. Tanto quanto ser chupado. (E, às vezes, até mais).

Não há inconveniente ou vergonha ou humilhação nisso. Chupar não constitui uma situação pejorativa.

A menos que você seja daqueles caras que ficam empurrando a cabeça da mulher para baixo ao mesmo tempo que tem nojo de vagina.

A menos que você considere que, na cama, quem acaricia ocupa uma posição subalterna. Ou que a genitália é uma coisa suja e que colocar a boca lá é uma depreciação para quem o faz. O que são duas ideias muito antigas e cafonas.

FODA-SE!

“Foda-se” é, de alguma forma, fazer sexo consigo mesmo. Remete a algum tipo de masturbação. Com inserção de alguma coisa em algum lugar – ou não. De novo, o que pode haver de ofensivo nisso?

Minha geração, lá pelos anos 80, usava “É foda!” ou “Tá foda!” para indicar uma situação desagradável. A meu ver, uma enorme contradição – foda é uma coisa boa!
Mas já surgia por lá uma outra acepção. Uma das minhas turmas de segundo grau se intitulava “Os fodões” – e isso era uma coisa boa, autoelogiosa. Queria dizer que éramos “foda” – no bom sentido.

Hoje ambos os sentidos parecem conviver, com leve vantagem para o sentido positivo sobre o pejorativo. (Como pode uma palavra significar uma coisa e também o seu contrário? Nós somos muito doidos e a linguagem expressa bem isso.) Quando há um trabalho muito bacana que chega ao mercado, todo mundo diz, em respeito, “foda!”, como se essa fosse a expressão máxima do elogio. Nas redes sociais, escreve-se isso com uma hashtag antes – e é elogio puro.

“Me fodi”, no entanto, continua sendo algo ruim. De novo, uma perseguição ao sexo solitário, seja ele qual for.

“Vou te foder” ou “não vá me foder” também não quer dizer coisa boa – quando deveria meramente se referir a sexo que, de novo, e de modo geral, é uma coisa boa.

Já “não fode!” tem um sentido mais leve, quase sardônico, que significa “ah, conta outra” ou “ah, não enche”.

(Aliás, “encher o saco” é um termo que faz sentido – remete à congestão testicular de quem não tem “fodido”, nem com os outros nem consigo mesmo. E “fodido”, contraditoriamente, é alguém que está na pior. Mas “fodido” é alguém que tem feito sexo, ou seja, a alguém, em tese, mais feliz do que outro que estiver de “saco cheio”.)

VAI TOMAR NO CU!

É bastante provável que, no caso de “foda”, como em várias outras xingações, metade do efeito seja simplesmente pronunciar uma palavra que a norma manda silenciar – podia ser “boceta!” ou “caralho!”, que o efeito seria o mesmo. Ou seja: o significado pouco importa, o ultraje está na própria quebra de protocolo. A outra metade da intenção pejorativa relacionada a “foda” se deve à insinuação de uma posição sexualmente passiva do interlocutor. Ou seja: “fodão” é o cara que penetra, “fodido” ou “se fodeu” é o cara que é penetrado. O que revela o machismo, o falocentrismo e o heterototalitarismo de ambos os termos. Então as mulheres, que não tem falo, estarão sempre “fodidas”?

Há aí também, como subtexto, o nosso preconceito e o nosso assombro em relação ao sexo anal. Dediquemos um minuto de atenção a “tomar no cu”. “Tomar”, sexualmente, em qualquer lugar, já seria um insulto. Mas “tomar no cu” é o paroxismo da ofensa sexual. Só que há milhões de homens e mulheres por aí, tanto heterossexuais como homossexuais, que haverão de discordar disso, para os quais “tomar no cu” pode ser bem prazeroso. E eles certamente não trancafiarão essa possibilidade a um falo – mas a expandirão também a “tomar” um dedo carinhoso ou uma língua macia ou algum outro brinquedinho especialmente concebido para essa modalidade. Ou seja: “tomar no cu” está muito longe de ser uma unanimidade nessa intenção negativa que carrega.

Em inglês, há a expressão “kiss my ass”, em que quem “toma no cu” – um beijo, uma lambida, um axé, qualquer coisa – é quem está bem na foto, enquanto quem está na ativa, a serviço daquele “ass”, é que está em desvantagem. Não temos no Brasil um equivalente a esse termo. Entre nós o cu é um objeto que jamais chegará a ser sujeito, um flanco desguarnecido que está longe de se tornar um playground.

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