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segunda-feira, 7 de abril de 2014 Sem categoria | 12:01

Você ainda sabe se é de direita ou de esquerda?

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Você é de esquerda, de direita ou muito antes pelo contrário?

Você é de esquerda, de direita ou muito antes pelo contrário?

Te chamaram de reaça? Já foi de esquerda? Tem vergonha de assumir que é de direita? Tá perdidinho no meio de todos esses conceitos e de como eles mudaram ao longo dos anos? Confira sua posição política nesse Pequeno Glossário (atualizado e provisório) de Abismos Semântico Políticos.

ESQUERDA

Esquerda costumava significar comunismo ou socialismo. Se você não era a favor do capitalismo, você era de esquerda.

O termo surgiu na Revolução Francesa. Os Jacobinos, liderados por Robespierre, que sentavam à esquerda na Assembleia Nacional Francesa, e que eram mais radicais na implantação do novo regime, se opunham aos representantes do Clero e da Aristocracia, que sentavam à direita e representavam os interesses remanescentes do Ancien Régime.

Aqui no Brasil, havia também, na esquerda, uma bandeira de honestidade asséptica, de correção inflexível, de ética inegociável, quase como um ascetismo moral, uma profissão de fé – afinal, os trabalhadores, puros e santos, mártires explorados, quando tomassem o poder, não se tornariam demônios espúrios, verdugos exploradores. Essa era a “práxis” do capitalismo – e o projeto da esquerda, ao extinguir o capitalismo, promoveria também, automaticamente, a sanitização das más intenções e das ações torpes de todos os homens, na figura de novos líderes incorruptíveis, legítimos representantes do povo.

O projeto de esquerda passa por um governo grande, por um Estado messiânico, que regula a vida e os fluxos da sociedade sob a bandeira da distribuição de renda, dos direitos dos trabalhadores, da promoção da igualdade social – sempre como uma obra política, e não econômica; sempre mais por obra de políticos redentores do que por mérito dos próprios indivíduos.

É um projeto de esquerda, por exemplo, elevar os gastos públicos, cobrando mais impostos da sociedade, para que o governo regule, com sapiência messiânica, por meio da sua máquina administrativa, montado no poder político e também econômico, o que deve ser feito, quando deve ser feito e como deve ser feito. Economia planejada e estado pervasivo são peças fundamentais num projeto de esquerda.

DIREITA

Direita costumava significar capitalismo.

No resto do mundo, liberalismo. Ou seja: estado pequeno, governo agindo mais como juiz da partida do que como jogador, mercado aberto e livre, regulado pela competição, supremacia da economia sobre a política, justiça ágil e independente, solucionando conflitos entre os indivíduos, e, principalmente, mais liberdades e mais responsabilidades passadas do âmbito público para o âmbito privado, da esfera institucional para as mãos das pessoas físicas e jurídicas.

É um projeto de direita, por exemplo, reduzir os gastos públicos, para termos menos impostos, para sobrar mais dinheiro no bolso dos cidadãos. Economia desregulamentada e iniciativa privada são peças fundamentais num projeto de direita. Menos governo, mais sociedade civil. É a linha de raciocínio do Partido Republicano, nos Estados Unidos – os chamados “conservadores” por lá.

Aqui no Brasil, direita também significava coronelismo, fisiologismo, achaque dos bens públicos por interesses privados e total descaso dos mais abastados com a coletividade que os circundava e os sustentava. Ser de direita, no Brasil, era apostar na desigualdade social para a eternização das prerrogativas obtidas pelos poderosos menos por méritos próprios, num mercado aberto e competitivo, e portanto, justo, do que por vantagens imorais e muitas vezes ilegais, e portanto injustas, obtidas por meio da concentração oligárquica da renda e do poder. Ser de direita por aqui era pertencer ou apoiar uma elite que jamais soube ou quis entender o que é a noblesse obligue.

ULTRADIREITA

A ultradireita, no resto do mundo, era fascista, nazista – havia entre essa turma, também, tanto quanto na esquerda, uma visão religiosa do mundo. Para a ultradireita, o progresso passaria por coisas como racismo, eugenia e totalitarismo. (Enquanto, para a esquerda, por coisas como a ditadura do proletariado, a revolução inevitável e o fim da história.)

No Brasil, a ultradireita sempre foi representada pelo pensamento feudal mais profundo, o ultraconservadorismo, a cassação de direitos individuais e a supressão das diferenças, em nome do controle dos indivíduos pelas instituições. A nossa ultradireita sempre foi carola, cafona, passadista, se debatendo por censurar o futuro em nome da eternização do passado. E a nossa ultradireita sempre preferiu a falsa convivência possível entre a Senzala e a Casa Grande do que a crueza dos campos de concentração.

ULTRAESQUERDA

Não sei bem o que é isso. Talvez sejam esses meninos que saem de casa para quebrar as coisas que estão estabelecidas sem saber direito o que colocar no lugar. Algo próximo do niilismo. Ou da anarquia. (E da irracionalidade da ultradireita também.) É menos um projeto político do que a falta de um projeto político – ou da ausência de crença em qualquer projeto político. É a crítica radical desprovida de uma sugestão. Tem mais a ver com a destruição de “tudo que está aí” do que com a construção de qualquer coisa nova.

CENTRO ESQUERDA

Centro esquerda era o pessoal que queria uma sociedade menos desigual, também por meio de um papel maior para o Estado, mas dentro do âmbito do capitalismo. Era o pessoal da Social Democracia, tanto na Europa quanto aqui no Brasil.

CENTRO DIREITA

Talvez o partido Democrata americano seja o melhor exemplo disso – os “liberais”, como eles são chamados por lá. Um capitalista que não é radical na sua crença na mão invisível do mercado e que acha que é preciso regulhar o mercado aqui e ali. Aqui no Brasil, não sei muito bem o que seria a “centro direita”. Talvez um cara de direita que, por algum motivo, tenha medo de assumir sua posição. Uma espécie de pelego às avessas.

REVOLUCIONÁRIO

Como a situação era o capitalismo na maioria dos lugares, o revolucionário era o cara de esquerda que queria, enfim, a revolução. É interessante notar que quando o regime é de esquerda, como em Cuba, quem se opõe a ele não é revolucionário mas, sim, reacionário – porque revolucionários são o que estão no poder. (No exemplo de Havana, há 60 anos. O que, a meu ver, é uma contradição em termos – você não pode ser o cara que detém o poder e o revolucionário ao mesmo tempo. Não é possível estar na situação e ser antissituacionista. Mas eles são donos de tudo, inclusive do termo “revolucionários”. Não são capitalistas mas tem uma marca registrada – sobre a qual guardam monopólio.)

REACIONÁRIO

Reacionário era o cara que “reagia” às forças da revolução, o sujeito conservador que queria manter as coisas mais ou menos como eram ou estavam. O reacionário – ou reaça – operava pela manutenção do status quo – e o status quo, lembremos, era em grande medida o capitalismo. Tratava-se, portanto, de um conservador, um cara de direita, um sujeito interessado na manutenção dos privilégios da classe dominante – como o Clero e a Aristocracia na Revolução Francesa. Ele queria manter a sua vidinha como ela se lhe apresentava, mesmo quando ele não pertencia exatamente à classe dominante. Aí ele também era chamado de pequeno burguês – o sujeito que gostava de capitalismo e gostava da ideia de ganhar dinheiro e adquirir as coisas que sonhava para si e sua família.

Diante de um regime de esquerda, como se autodefinem hoje países como Venezuela, Equador e Bolívia, me parece que a única revolução possível é a liberal. Nesse caso, o sujeito que quer manter as coisas como estão é o de esquerda – e quem quer mudar é o cara que sonha com o capitalismo e a livre competição. Ou seja: quem opera pela manutenção do status quo, nessas sociedades, é o cara de esquerda. Ele é que deseja manter os privilégios da classe dominante, o politburo, os membros do partido, mesmo quando ele não pertence exatamente a ela. Será que podemos chamá-lo de pequeno bolchevique?

ALIENADO

Alienado era um sujeito desinformado, ou mal informado, um tapado que não nutria interesse por se instruir nas questões políticas. Era um acomodado cuja inocência – ou alienação –, útil para a manutenção do status quo, era vista como mais um ato vil do sistema. Parte da missão de fé da esquerda era promover a consciência dos alienados. (De novo, vejo essa definição valendo de modo invertido, num regime de esquerda.) Sua antítese era o cara “politizado”, o cara que conhecia o jargão.

DESBUNDADO

Desbundado era o cara que já tinha acreditado na revolução, já tinha participado de plenárias, assembleias e lido autores marxistas, e que agora só queria curtir a vida, a praia, o futebol, as mulheres, um trago ou um baseado de vez em quando. Desbundado era um cara que tinha desistido da luta. Essa figura, com esse nome, só existia no Brasil mesmo. Sua antítese era o cara “combativo”.
Essas definições clássicas foram concebidas num mundo muito polarizado. O século 20 foi uma disputa aberta entre capitalismo e comunismo – da Revolução Russa, em 1917, à Queda do Muro de Berlim, em 1989. (Segundo o historiador Eric Hobsbawn, ele mesmo um homem de esquerda, esse é período de tempo que compreende o “breve século 20”.) Esse dualismo nos ajudava a entender com mais clareza as diversas posições. Havia poucas áreas cinzentas.

 

Hoje as coisas ficaram um pouco mais complicadas. E a polarização voltou a tomar corpo aqui no Brasil de modo notável. Não entre projetos políticos – mas entre partidos, entre governo e oposição. Vivemos novos anos 70 – só que com Facebook.

O projeto do PT, à frente do país desde 2002, talvez nem possa ser qualificado como de “esquerda”. Ele se parece em vários pontos com o projeto social-democrata que o PSDB empreendeu entre 1994 e 2002 – com a desvantagem, para o PT, de que o PSDB parece ter sido muito mais competente, ter tido uma visão estratégica muito mais apurada e ter tido um estoque de coragem política muito maior para implementar algumas rupturas históricas que geraram avanços importantíssimos para o país – mais telefones, mais carros, mais computadores para as pessoas, só para citar três itens que mudaram nossas vidas. O PT não fez nada parecido. Nenhuma reforma ou salto estrutural foi criado nos últimos doze anos. Os “cinquenta anos em cinco” (ou em oito), a meu ver, foram realizados por FHC, muito mais do que por Lula e Dilma, que operaram no assistencialismo do Bolsa Família – e só. Os milhões de brasileiros que escaparam à linha de pobreza e a emergência da Nova Classe Média Brasileira, fenômeno que merece todas as loas, talvez tenha sido gerado mais pela pujança do mercado, pelo dinamismo da iniciativa privada, num momento em que a conjuntura internacional favoreceu à economia brasileira, do que propriamente pela ação do governo. Mais: se essa inclusão foi mesmo feita com dinheiro público, por meio da ação do Estado, temo que se traduza numa medida frágil, conjuntural, de difícil sustentação. Quem sobe precisa se manter lá em cima, com a cabeça para fora d’água, e aí é preciso ter aprendido a nadar, é preciso ter adquirido musculatura própria, sem ficar dependendo ad infinitum da mãozinha de Brasília. Ou seja: o sujeito só troca de vida mesmo se passar mais anos na escola e traduzir isso em ganhos salariais. O resto é espuma. Ou é analgésico – quando passa o efeito, as condições que geraram a dor continuam lá, intocadas. Os vespeiros que o PT tinha que ter atacado – reforma tributária e reforma política, só para citar dois deles – estão intactos. A revolução na educação – que reforça musculaturas e ensina a nadar – também espera para ser realizada. (Também nesse setor, crítico para o futuro do país, parece que o grande salto foi dado pelo PSDB, nos anos 90, e não nos três mandatos do PT.) Para azar nosso. Para azar da Nação.
Hoje, para saber se somos de esquerda, de direita, se somos reaças ou alienados, ou se nada disso ainda significa qualquer coisa nos dias que correm, é preciso aterrissar o debate, sair do partidarismo, dessa polarização toupeira que grassa por aí, emburrecendo o debate, e se questionar esse tipo de coisa:

 

1. Você acha que empresas competindo livremente num mercado é uma coisa boa ou acha que o governo precisa regular isso visando o melhor interesse dos consumidores brasileiros e uma divisão mais justa do bolo?

2. Você acha que a CLT é um atraso para o mercado de trabalho no Brasil ou é uma garantia de direitos para os trabalhadores e que sem ela estaríamos nas mãos dos empregadores?

3. Você acha que a Petrobras e as demais estatais brasileiras são orgulhos nacionais e garantia de soberania para o país ou acha que elas seriam melhor geridas pela iniciativa privada?

4. Casais homossexuais podem ter os mesmos direitos que casais heterossexuais – incluindo contrato de matrimônio, figurar como dependente no plano de saúde, compor renda para tirar empréstimo no banco e adotar crianças, ou acha que os valores da família devem ser preservados acima de tudo e que dois homens ou duas mulheres vivendo como cônjuges não pode ser algo aceito como normal?

5. Você acha que o aborto é um direito da mulher, ou do casal, quando não deseja ter o bebê, ou acha que se trata de um crime, que aborto é um homicídio cometido contra o feto?

6. Você acha que a educação deve ser laica, e que deveríamos abolir símbolos religiosos, como crucifixos, das escolas e dos ambientes públicos, ou acha que a melhor educação que existe é a religiosa e que quanto mais próximas as pessoas estiverem de Deus, melhor?

7. Você acha que a prostituição é uma profissão como qualquer outra e que deveria ser regulamentada e ter seus direitos respeitados e defendidos como qualquer outra ou acha que se trata de algo que deveríamos proibir e combater?

8. Você acha que os gastos sociais do governo com o Bolsa Família e os demais programas assistenciais são bons porque tiram gente da pobreza ou acha que essas são medidas populistas que tornam àquelas pessoas dependentes e menos aptos a se tornarem cidadãos autônomos?

9. Você é a favor do estabelecimento de cotas para minorias nas universidades e nas empresas, como um resgates histórico da desigualdade no país, ou acha que medidas assim matam a meritocracia e portanto prejudicam a todos ao punir os melhores?

10. Você é a favor da pena de morte para crimes hediondos ou acha que o Estado não tem o direito de tirar a vida de um indivíduo – mesmo que esse indivíduo tenha tirado a vida de outros?

11. Você é a favor da redução da maioridade penal para 16 anos, por que esse menores devem ser responsabilizados pelos seus atos, ou acha que esses menores também são vítimas do sistema?

12. Você acha que a posse e o porte de armas são um direito inalienável do cidadão ou que o uso de armas deveria ser mantido como uma prerrogativa exclusiva da polícia e do exército?

13. Você aprova que a polícia aja com violência contra bandidos, porque é preciso enfrentar os marginais com as armas deles, ou acha que a polícia não pode de modo algum agir fora da lei na hora de impor a lei?

14. Você é a favor dos obesos terem direito a assentos e outras condições especiais ou acha que o peso é problema de cada um e não pode ser considerado doença ou deficiência para merecer tratamento diferenciado?

15. Você acha que devíamos fechar a Amazônia, com uma grande parque nacional de preservação ambiental, para pesquisa e turismo, ou acha que temos que explorá-la economicamente, porque não podemos nos dar ao luxo de ter uma área tão grande do território nacional sem produzir alimento e riquezas para o país?

16. Você acha que, com o crescimento econômico brasileiro, deveríamos fechar as fronteiras do país à imigração de gente pobre de outros lugares, como outros países da América do Sul ou da África, ou acha que deveríamos receber quem queira vir para cá trabalhar e contribuir?

17. Você acha que deveríamos descriminalizar o uso de drogas ou acha que a repressão ao tráfico e aos usuários ainda é o melhor jeito de lidar com essa questão?

18. Você abriria mão de usar o seu carro 50% do tempo em que você o utiliza hoje, em nome de suprir os outros 50% da sua necessidade de locomoção com um sistema de transporte público eficiente, ou acha que ainda não inventaram um meio de transporte melhor do que um carro e que você tem direito a ter um automóvel e a usá-lo como, quando e onde quiser?

 

As respostas a essas questões, e a outras, definem muito mais, hoje, em que terreno você atua, politicamente, e quem você é, como cidadão, do que os velhos rótulos que vão sendo requentados de modo cada vez mais esfarrapado nos grandes, nos enormes, nos infindáveis debates da intelligentsia e da burritzia nas redes sociais.

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