Publicidade

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014 Sem categoria | 12:19

As camisetas das Adidas nos representam

Compartilhe: Twitter
O Narciso às avessas acha feio tudo aquilo que é espelho.

O Narciso às avessas acha feio tudo aquilo que é espelho.

Com relação a essa polêmica das camisetas da Adidas – que enorme bobabem!

Não é apenas que nós sejamos carolas – e, como qualquer carola, hipócritas. É que somos cafonas. E, como país, nos apequenamos a questões irrisórias – talvez para deixarmos de olhar para as questões que realmente importam. Essa postura é tanto do governo, que fez uma moção contra um par de camisetas, quanto de parte da imprensa e dos comentaristas, que se ofenderam com elas.

Como sempre, nos incomodamos com a representação e não com a realidade. Nos indignamos com o modo como somos vistos, especialmente por estrangeiros – dos episódios dos Simpsons e de South Park citando o Brasil às declarações bocós de Sylvester Stallone sobre o país –, e não com as nossas mazelas diárias, com as quais sempre damos um jeito de conviver numa boa. Como se pudéssemos impor uma censura ao que pensam sobre nós. Como se precisássemos os posicionar a cada vez que nos citassem.

Temos coisas mais importantes a fazer – uma Copa e uma Olimpíada, por exemplo. Milhares de quilômetros de metrôs e centenas de hospitais equipados, se você preferir.

Uma das camisetas da Adidas faz uma referência a “se dar bem” no Brasil – “score” significa tanto marcar um gol quanto ficar com alguém. E há uma moça de biquíni, segurando uma bola de futebol, com o Pão de Açúcar por detrás. (Caramba, não houve uma só viagem que tenha feito quando solteiro em que não tenha sonhado em “score” uma local – de Capão da Canoa a Nova York. Que mal há nisso?)

A outra T-Shirt escreve no peito “I love Brazil”, com um coração estilizado na forma de um bumbum de biquíni no lugar da palavra “love”. (Uma declaração de amor, note.)

A indignação oficial é que essas imagens estariam reforçando a ideia de que o Brasil é um destino para o turismo sexual.

A indignação velada é a de gente que se sente desconfortável ao ver o país ser identificado com bundas expostas e mulheres seminuas.

Eu tenho algumas coisas a dizer sobre isso:

1. Primeiro: as camisetas não são ofensivas. Não foram feitas para dilapidar a imagem do país. Não contém uma mensagem odiosa em relação ao Brasil. Elas tocam num melindre nosso, numa questão nacional mal resolvida – mas a Adidas não tem nada a ver com isso.

2. Se há um sexismo nas camisetas, ao enfocar somente as mulheres, e tomá-las como objetos, corrijamos essa estreiteza fazendo outras camisetas que impliquem mais diversidade – e não banindo essas. Quem sabe uma camiseta em que “se dar bem” no Brasil seja representado também por um garotão de abdômen sarado? O Rio é uma cidade gay friendly. Assim como Porto Alegre. São Paulo caminha para isso. O que é ótimo. Se estamos falando em construção de símbolos nacionais, em diferenciais competitivos que nos posicionem bem, como nação, no imaginário internacional, então a tag “gay friendly” é muito interessante. Além de equilibrar o sexismo contido nas imagens de mulheres pouco vestidas.

3. Uma das coisas boas do Brasil é que somos mais “físicos” do que outros povos, nos tocamos, nos abraçamos e nos beijamos mais, e expomos um pouco mais o corpo em público. No entanto, isso jamais no livrou de sermos uma sociedade cheia de recalques sexuais. De fato, as mulheres brasileiras vão à praia mais vestidas do que as europeias, por exemplo. O topless, no Brasil, ainda é um escândalo. E o fio dental, como bem pontuou uma vez um amigo, é muito mais um símbolo da nossa dificuldade de lidar com outras formas de sexo que não sejam o papai-e-mamãe, uma espécie de desejo reprimido em relação ao sexo anal, do que propriamente uma celebração das nossas liberdades sexuais.

4. Mesmo careta e machista, ou exatamente por conta dessa tradição, conseguimos criar uma moda praia matadora – e a indústria de lingeries mais sexy do planeta. E isso é bom. Mesmo que não seja totalmente verdade, e que exista mais como aspiração do que como prática, mais como fetiche do que como realidade diária, não deveríamos nos envergonhar desse verniz de sensualidade que jogamos sobre nós mesmos. E os estrangeiros não tem culpa de acreditar nisso e de potencializar esse mito – que nós mesmos criamos. Deve ter causado espanto aos designers que conceberam as camisetas na Adidas a reação que elas causaram aqui no Brasil. Imagino os caras pensando: “Mas por que eles se ofenderam?”. Afinal, eles retrataram o que se vê nas praias. O que se verá à exaustão nos desfiles de Carnaval. Eles devem estar achando que temos dupla personalidade. E nós, aqui do nosso lado, deveríamos estar preocupados, de verdade, com o fato de que o mundo está descobrindo nosso pequeno segredo – o Brasil não é bem resolvido sexualmente coisa nenhuma! Ao invés de celebrar corpos nus, bonitos e bronzeados, como parece à primeira vista em qualquer calçadão ou parque do país, os brasileiros na verdade se ofendem com a nudez e não querem ser associados a uma ideia de sensualidade. Cá entre nós: com essa ojeriza à pele exposta e as curvas desnudas, não seria melhor que adotássemos logos burcas, ao invés de sungas e cortininhas? Quem nos dera sermos de fato um paraíso sexual. Seria bom para nós, nativos. E bom também para quem nos visitasse. Estamos longe de ser uma Suécia tropical, infelizmente. Estamos mais para o Alabama. Ou para Lagos.

5. Com relação ao turismo sexual. Se estivermos falando de mulheres e homens maiores de idade, e que estejam por vontade própria colocando seus favores sexuais à venda, ninguém tem nada a ver com isso. A função do governo, nesse caso, é garantir que atividade seja respeitada, que não implique violência ou exploração econômica, nem para quem vende nem para quem compra esses serviços. Trata-se de uma profissão. Que deveria ser regulamentada – uma das batalhas do surpreendente deputado Jean Willys. Não é demérito para o país ser um destino sexual procurado. Desde que não envolvida menores de idade ou coerção de nenhuma natureza, trata-se de mais uma possibilidade que o país oferece aos turistas que o visitam.

6. Eu adoro camisetas. Mas não usaria as Adidas porque não são bonitas nem inteligentes o suficiente – reproduzem clichês de modo graficamente pouco interessante. Mas não vejo nenhum motivo para celeuma – ainda mais envolvendo autoridades federais. Esse para de T Shirts não arranha em nada nossa imagem internacional – ao contrário de turistas sendo estuprados dentro de Kombis, de gente sendo queimada viva dentro de ônibus, de cadáveres amanhecendo decapitados nas ruas das favelas, de pais de família tomando tiros à queima roupa dentro se seus carros, num sinal vermelho, com seus filhos no banco de trás. Isso, sim, prejudica a imagem do país.

7. Por fim, digo que, se quisermos criar novos símbolos para o país, que o façamos na esfera da realidade – para depois se transformarem em representação. Democracia racial. Democracia religiosa. Democracia sexual. Relações sustentáveis com o trabalho, com a natureza, entre as pessoas. Tem tanta coisa para construirmos. Coisas que um dia até podem nos representar numa camiseta da Adidas – desde que as construamos primeiro.

Autor: Tags: , , , , , , , ,

12 comentários | Comentar

  1. 62 AlysonAnt 04/10/2017 11:04

    Oh God. I don’t know what to do as I have Lots of work to do next week month. Plus the university exams are approaching, it will be a disaster. I am already being nervous maybe I should url to calm down a little bit. Hopefully it will all go well. Wish me luck.

    Responder
  2. 61 AlysonQnw 07/10/2017 14:01

    My friend and I went camping the other day. It was a horrible experience, as he wouldn’t let me sleep all night. He kept talking about random subjects and complained about his wakefulness. I totally told him to read more and deal with it.

    Responder
  3. 58 AlysonYfp 17/10/2017 9:29

    https://www.instapaper.com/p/5969122

    Responder
  4. 51 ElvaPrw 16/11/2017 10:58

    Hey guys!!!
    designs and builds specialty lines of lead oxide production equipment, material handling systems, battery related process machinery, parts, and accessories for the battery, pigment, glass, and chemical industries. http://techbasys.com offers technical application and engineering services to help the customer acheive maximum benefit from their equipment and manufacturing processes.

    Responder
  1. ver todos os comentários
 

Antes de escrever seu comentário, lembre-se: o iG não publica comentários ofensivos, obscenos, que vão contra a lei, que não tenham o remetente identificado ou que não tenham relação com o conteúdo comentado. Dê sua opinião com responsabilidade!

* Campos obrigatórios


 

Responder comentário


* Campos obrigatórios