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segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014 Sem categoria | 11:40

Faltam 100 dias para a Copa. Tá tudo em cima?

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Fuleco, meu querido Tatu: sai da toca! (Ou então se ajeita aí que eu quero entrar!)

Fuleco, meu querido tatu: sai da toca! (Ou então se ajeita aí que eu quero entrar!)

A Copa suscitou entre nós, brasileiros, dois sentimentos.

O primeiro, logo que fomos escolhidos para sediar o evento, era “eu preciso enriquecer com a Copa”. Espalhou-se entre muitos de nós uma ansiedade parecida com aquela que havia no final dos anos 90 em relação à internet, quando as pessoas se questionavam pelos corredores – “o que eu vou dizer aos meus netos quando eles em perguntarem o que eu estava fazendo na revolução digital?” A bolha cresceu e estourou, a revolução digital se mostrou um fenômeno de longo prazo, e não um mera corrida do ouro, e essa certamente não é uma pergunta – ou cobrança – que nenhum de nós ouvirá dos seus netos. A Copa, há um par de anos, gerou a mesma sanha extrativista em vários patrícios – como eu faço para aproveitar esse momento histórico e ficar rico?

O segundo sentimento é esse recente – e assustador – “Não vai ter Copa”. Trata-se de uma postura nascida nas manifestações de junho, quando a sociedade civil redescobriu sua força e foi as ruas – no que foi imediatamente seguida por bandos de arruaceiros dos mais variados tons de preto. Os cidadãos que trabalham, criam filhos, estudam, pagam impostos, sonham com uma vida melhor e com um país melhor, voltaram a ter medo de sair às ruas – não tanto por causa da polícia, mas muito mais por conta dessas figuras encapuzadas, armadas de uma inconsequência juvenil e violenta, dispostos a quase tudo por quase nada, que aparecem não se sabe de onde e que parecem ter uma compulsão por quebrar vidraças e – marca registrada nacional – incendiar ônibus.

Entre a disposição de encontrar um meio para ganhar dinheiro de modo rápido e oportunista, e a disposição de se posicionar de modo igualmente oportunista para causar destruição, acobertados pela multidão bem intencionada e relativizados pela discussão política travada acerca desses atos violentos, não ouvi em nenhum momento alguém dizer – “Vamos fazer uma Copa sensacional!” Salvo projetos esparsos, como o bravo Imagina na Copa, esse sentimento de usar o evento apenas para produzir um grande evento nunca existiu entre nós. Nem entre patrocinadores, nem no governo, nem em outros negócios e iniciativas. Simplesmente não foi esse o espírito nacional que aflorou diante da Copa. Fazer a lição de casa, o arroz com feijão bem feito (e quem sabe até fritar um ovo e jogar por cima), entregar aquilo que prometemos, nos prepararmos condizentemente, arrumarmos o país como um anfitrião que se arruma para receber em casa – esse sentimento não floresceu entre nós. O que diz muito sobre quem somos. E sobre o que podemos como povo e como nação.

O que fizemos para a Copa? Que ganhos obtivemos? O que vamos oferecer a quem se aventurar entre nós – dizem que serão 3 milhões de turistas nacionais e internacionais rodando por aqui – ao longo daqueles 30 dias que começam no início de junho? Treinamos taxistas? Arregimentamos voluntários? Estabelecemos um hotline nacional para o atendimento imediato de turistas em apuros – na língua deles? Alguém está ensaiando direito uma cerimônia de abertura bonita, bem concebida?

Tirando um ou outro superfaturamento seguido de atraso e seguido, por sua vez, de uma suplementação de verbas – o que até Pero Vaz de Caminha já sabia que ia acontecer -, e tirando uma devolução dos quartos de hotel reservados aqui e ali, e tirando algumas reformas pontuais realizados num e noutro aeroportos, o que fizemos para que a Copa do Mundo no Brasil fosse um evento inesquecível, um marcador em nossa história – como as Olimpíadas de Seul, em 1988, foram para a Coreia -, ou então uma demonstração internacional de nossa capacidade de organização e de entrega, e de nossa confiabilidade como país – como os Jogos de 2012 foram para a China?

Alguns países transformaram esse tipo de oportunidade para amalgamar a sociedade e gerar um momento de orgulho nacional. Nós, menos por pirraça do que por inação, estamos nos encaminhando para gerar um momento de vergonha nacional. O que poderia ser uma oportunidade incrível de consolidação de mudança da marca Brasil, gerando dividendos para todos nós, aqui dentro e lá fora, pode virar um fiasco e um desastre inacreditáveis. (Com direito a bis em 2016.) Mas talvez essa seja a única causa realmente capaz de unir todos os brasileiros – o sentimento de incompetência, a dor de cotovelo diante do fracasso que nós mesmos carpimos, uma espécie de vergonha alheia de nós mesmos.

A Copa e a Olimpíada sempre correram o risco de serem vistas, só para variar, como mais uma oportunidade para o assalto ao erário e para o locupletação imediata de alguns. Alguém lembra das contas do Panamericano do Rio em 2007? Pagamos várias vezes mais para ter um resultado medíocre. Reformamos duas vezes o Maracanã em menos de cinco anos! (Aliás, aquele poderia ser o slogan da administração pública brasileira. Nada nos define melhor.) No entanto, nem isso parece que conseguiremos alcançar com a Copa. Estamos simplesmente batendo cabeça. Parece que viramos as costas para o evento. Toda a sociedade. O pessoal da velha economia, da nova economia, os hipsters, os coxinhas, todo mundo. Como se não quiséssemos nos envolver, como se a Copa fosse finalmente uma notícia ruim, um embaraço, uma bomba relógio da qual preferíssemos guardar distância. O que também diz muito das expectativas que nós temos acerca do nosso próprio trabalho. Quem vai acreditar em nós quando nós mesmo não acreditamos, quando fazemos tudo para confirmar as profecias autorrealizáveis de tragédia que contam por aí a nosso respeito?

No final, além de alguns estádios de padrão Fifa (onde, tomara, os lugares marcados nos ingressos comecem a ser finalmente respeitados no país do “eu vi primeiro”), e de alguns aeroportos recauchutados, o que a Copa vai gerar? Que legado ela vai deixar ao Brasil? Não construímos hotéis, nem o trem bala Rio-São Paulo, nem metrôs e estacionamentos perto do estádios. O meu querido Beira Rio tem membranas translúcidas mas ainda não tem calçadas pavimentadas ao redor! É como se o Allianz Arena sumisse de Munique, na Alemanha, e se materializasse de repente na favela do Buraco Quente, em Porto Alegre, sobre a lama. Eis o ponto: nós não fizemos nada. Perdemos tempo. Perdemos a oportunidade. Ficamos parados. Por falta de planejamento, de organização, de tino realizador, de senso de responsabilidade, de capacidade de nos entendermos entre nós mesmos e coordenarmos esforços para um bem comum. Nossa incompetência de gerir essa Copa tem sido a nossa incompetência histórica de gerir a nós mesmos como sociedade.

Eis o que o espelho está nos mostrando: fazemos sempre o mínimo necessário, na última hora. Se colar, colou. Não temos capricho, nem orgulho de fazer bem feito. Que nos importa defender a honra ou preservar a reputação? Somos lenientes, operamos sempre pelo provisório e não pelo definitivo. Nos orientamos por qualquer nota, pelo assim já está bom. Procrastinamos, não somos previdentes, não gostamos de assumir compromissos. Afinal, somos bom de ginga, temos samba no pé, adoramos o improviso, podemos sempre sacar o jeitinho brasileiro do bolso.

Um dia talvez percebamos que, se fizéssemos as coisas direito, com planejamento, distribuindo e cobrando responsabilidades, nos organizando de modo eficiente, ganharíamos muito mais. (Ainda que alguns, que hoje lucram muito com a bagunça, fossem ganhar um pouco menos.) Assim pagaríamos menos taxas de urgência. Assim viveríamos menos sobressaltos. E sobrecarregaríamos menos as entidades de várias religiões com nossas preces de última hora – sempre desesperadas e arrependidas.

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25 comentários | Comentar

  1. 75 Vanilda Parreiras 12/03/2014 17:54

    Amei!!!
    Traduziu o que sinto e ainda não tinha falado nem escrito. Enquanto vivermos na lei do “vi primeiro”, sem planejamento e organização, vamos continuar sendo subdesenvolvidos.

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  2. 74 thiago caetano 09/04/2014 14:02

    adriano gostei muito do seu blog e das coisas ditas nessa enquete. coisas que realmente e o cotidiano do brasileiro.

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  3. 73 Não à Copa 10/05/2014 12:26

    Desejo que essa copa seja a pior copa de todos os tempos! Que ela reflita toda a desonestidade, toda injustiça, desigualdade e falta de amor ao próximo dos que estão trabalhando para que ela aconteça. Que ela demonstre a realidade nua e crua do Brasil aos visitantes e dê muitos prejuízos aos anfitriões.

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  4. 72 Copafora 10/05/2014 12:27

    Desejo que essa copa reflita toda a desonestidade, toda injustiça, desigualdade e falta de amor ao próximo dos que estão trabalhando para que ela aconteça. Que ela demonstre a realidade nua e crua do Brasil aos visitantes e dê muitos prejuízos aos anfitriões.

    Responder
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