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Arquivo de fevereiro, 2014

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014 Sem categoria | 12:19

As camisetas das Adidas nos representam

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O Narciso às avessas acha feio tudo aquilo que é espelho.

O Narciso às avessas acha feio tudo aquilo que é espelho.

Com relação a essa polêmica das camisetas da Adidas – que enorme bobabem!

Não é apenas que nós sejamos carolas – e, como qualquer carola, hipócritas. É que somos cafonas. E, como país, nos apequenamos a questões irrisórias – talvez para deixarmos de olhar para as questões que realmente importam. Essa postura é tanto do governo, que fez uma moção contra um par de camisetas, quanto de parte da imprensa e dos comentaristas, que se ofenderam com elas.

Como sempre, nos incomodamos com a representação e não com a realidade. Nos indignamos com o modo como somos vistos, especialmente por estrangeiros – dos episódios dos Simpsons e de South Park citando o Brasil às declarações bocós de Sylvester Stallone sobre o país –, e não com as nossas mazelas diárias, com as quais sempre damos um jeito de conviver numa boa. Como se pudéssemos impor uma censura ao que pensam sobre nós. Como se precisássemos os posicionar a cada vez que nos citassem.

Temos coisas mais importantes a fazer – uma Copa e uma Olimpíada, por exemplo. Milhares de quilômetros de metrôs e centenas de hospitais equipados, se você preferir.

Uma das camisetas da Adidas faz uma referência a “se dar bem” no Brasil – “score” significa tanto marcar um gol quanto ficar com alguém. E há uma moça de biquíni, segurando uma bola de futebol, com o Pão de Açúcar por detrás. (Caramba, não houve uma só viagem que tenha feito quando solteiro em que não tenha sonhado em “score” uma local – de Capão da Canoa a Nova York. Que mal há nisso?)

A outra T-Shirt escreve no peito “I love Brazil”, com um coração estilizado na forma de um bumbum de biquíni no lugar da palavra “love”. (Uma declaração de amor, note.)

A indignação oficial é que essas imagens estariam reforçando a ideia de que o Brasil é um destino para o turismo sexual.

A indignação velada é a de gente que se sente desconfortável ao ver o país ser identificado com bundas expostas e mulheres seminuas.

Eu tenho algumas coisas a dizer sobre isso:

1. Primeiro: as camisetas não são ofensivas. Não foram feitas para dilapidar a imagem do país. Não contém uma mensagem odiosa em relação ao Brasil. Elas tocam num melindre nosso, numa questão nacional mal resolvida – mas a Adidas não tem nada a ver com isso.

2. Se há um sexismo nas camisetas, ao enfocar somente as mulheres, e tomá-las como objetos, corrijamos essa estreiteza fazendo outras camisetas que impliquem mais diversidade – e não banindo essas. Quem sabe uma camiseta em que “se dar bem” no Brasil seja representado também por um garotão de abdômen sarado? O Rio é uma cidade gay friendly. Assim como Porto Alegre. São Paulo caminha para isso. O que é ótimo. Se estamos falando em construção de símbolos nacionais, em diferenciais competitivos que nos posicionem bem, como nação, no imaginário internacional, então a tag “gay friendly” é muito interessante. Além de equilibrar o sexismo contido nas imagens de mulheres pouco vestidas.

3. Uma das coisas boas do Brasil é que somos mais “físicos” do que outros povos, nos tocamos, nos abraçamos e nos beijamos mais, e expomos um pouco mais o corpo em público. No entanto, isso jamais no livrou de sermos uma sociedade cheia de recalques sexuais. De fato, as mulheres brasileiras vão à praia mais vestidas do que as europeias, por exemplo. O topless, no Brasil, ainda é um escândalo. E o fio dental, como bem pontuou uma vez um amigo, é muito mais um símbolo da nossa dificuldade de lidar com outras formas de sexo que não sejam o papai-e-mamãe, uma espécie de desejo reprimido em relação ao sexo anal, do que propriamente uma celebração das nossas liberdades sexuais.

4. Mesmo careta e machista, ou exatamente por conta dessa tradição, conseguimos criar uma moda praia matadora – e a indústria de lingeries mais sexy do planeta. E isso é bom. Mesmo que não seja totalmente verdade, e que exista mais como aspiração do que como prática, mais como fetiche do que como realidade diária, não deveríamos nos envergonhar desse verniz de sensualidade que jogamos sobre nós mesmos. E os estrangeiros não tem culpa de acreditar nisso e de potencializar esse mito – que nós mesmos criamos. Deve ter causado espanto aos designers que conceberam as camisetas na Adidas a reação que elas causaram aqui no Brasil. Imagino os caras pensando: “Mas por que eles se ofenderam?”. Afinal, eles retrataram o que se vê nas praias. O que se verá à exaustão nos desfiles de Carnaval. Eles devem estar achando que temos dupla personalidade. E nós, aqui do nosso lado, deveríamos estar preocupados, de verdade, com o fato de que o mundo está descobrindo nosso pequeno segredo – o Brasil não é bem resolvido sexualmente coisa nenhuma! Ao invés de celebrar corpos nus, bonitos e bronzeados, como parece à primeira vista em qualquer calçadão ou parque do país, os brasileiros na verdade se ofendem com a nudez e não querem ser associados a uma ideia de sensualidade. Cá entre nós: com essa ojeriza à pele exposta e as curvas desnudas, não seria melhor que adotássemos logos burcas, ao invés de sungas e cortininhas? Quem nos dera sermos de fato um paraíso sexual. Seria bom para nós, nativos. E bom também para quem nos visitasse. Estamos longe de ser uma Suécia tropical, infelizmente. Estamos mais para o Alabama. Ou para Lagos.

5. Com relação ao turismo sexual. Se estivermos falando de mulheres e homens maiores de idade, e que estejam por vontade própria colocando seus favores sexuais à venda, ninguém tem nada a ver com isso. A função do governo, nesse caso, é garantir que atividade seja respeitada, que não implique violência ou exploração econômica, nem para quem vende nem para quem compra esses serviços. Trata-se de uma profissão. Que deveria ser regulamentada – uma das batalhas do surpreendente deputado Jean Willys. Não é demérito para o país ser um destino sexual procurado. Desde que não envolvida menores de idade ou coerção de nenhuma natureza, trata-se de mais uma possibilidade que o país oferece aos turistas que o visitam.

6. Eu adoro camisetas. Mas não usaria as Adidas porque não são bonitas nem inteligentes o suficiente – reproduzem clichês de modo graficamente pouco interessante. Mas não vejo nenhum motivo para celeuma – ainda mais envolvendo autoridades federais. Esse para de T Shirts não arranha em nada nossa imagem internacional – ao contrário de turistas sendo estuprados dentro de Kombis, de gente sendo queimada viva dentro de ônibus, de cadáveres amanhecendo decapitados nas ruas das favelas, de pais de família tomando tiros à queima roupa dentro se seus carros, num sinal vermelho, com seus filhos no banco de trás. Isso, sim, prejudica a imagem do país.

7. Por fim, digo que, se quisermos criar novos símbolos para o país, que o façamos na esfera da realidade – para depois se transformarem em representação. Democracia racial. Democracia religiosa. Democracia sexual. Relações sustentáveis com o trabalho, com a natureza, entre as pessoas. Tem tanta coisa para construirmos. Coisas que um dia até podem nos representar numa camiseta da Adidas – desde que as construamos primeiro.

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segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014 Sem categoria | 11:40

Faltam 100 dias para a Copa. Tá tudo em cima?

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Fuleco, meu querido Tatu: sai da toca! (Ou então se ajeita aí que eu quero entrar!)

Fuleco, meu querido tatu: sai da toca! (Ou então se ajeita aí que eu quero entrar!)

A Copa suscitou entre nós, brasileiros, dois sentimentos.

O primeiro, logo que fomos escolhidos para sediar o evento, era “eu preciso enriquecer com a Copa”. Espalhou-se entre muitos de nós uma ansiedade parecida com aquela que havia no final dos anos 90 em relação à internet, quando as pessoas se questionavam pelos corredores – “o que eu vou dizer aos meus netos quando eles em perguntarem o que eu estava fazendo na revolução digital?” A bolha cresceu e estourou, a revolução digital se mostrou um fenômeno de longo prazo, e não um mera corrida do ouro, e essa certamente não é uma pergunta – ou cobrança – que nenhum de nós ouvirá dos seus netos. A Copa, há um par de anos, gerou a mesma sanha extrativista em vários patrícios – como eu faço para aproveitar esse momento histórico e ficar rico?

O segundo sentimento é esse recente – e assustador – “Não vai ter Copa”. Trata-se de uma postura nascida nas manifestações de junho, quando a sociedade civil redescobriu sua força e foi as ruas – no que foi imediatamente seguida por bandos de arruaceiros dos mais variados tons de preto. Os cidadãos que trabalham, criam filhos, estudam, pagam impostos, sonham com uma vida melhor e com um país melhor, voltaram a ter medo de sair às ruas – não tanto por causa da polícia, mas muito mais por conta dessas figuras encapuzadas, armadas de uma inconsequência juvenil e violenta, dispostos a quase tudo por quase nada, que aparecem não se sabe de onde e que parecem ter uma compulsão por quebrar vidraças e – marca registrada nacional – incendiar ônibus.

Entre a disposição de encontrar um meio para ganhar dinheiro de modo rápido e oportunista, e a disposição de se posicionar de modo igualmente oportunista para causar destruição, acobertados pela multidão bem intencionada e relativizados pela discussão política travada acerca desses atos violentos, não ouvi em nenhum momento alguém dizer – “Vamos fazer uma Copa sensacional!” Salvo projetos esparsos, como o bravo Imagina na Copa, esse sentimento de usar o evento apenas para produzir um grande evento nunca existiu entre nós. Nem entre patrocinadores, nem no governo, nem em outros negócios e iniciativas. Simplesmente não foi esse o espírito nacional que aflorou diante da Copa. Fazer a lição de casa, o arroz com feijão bem feito (e quem sabe até fritar um ovo e jogar por cima), entregar aquilo que prometemos, nos prepararmos condizentemente, arrumarmos o país como um anfitrião que se arruma para receber em casa – esse sentimento não floresceu entre nós. O que diz muito sobre quem somos. E sobre o que podemos como povo e como nação.

O que fizemos para a Copa? Que ganhos obtivemos? O que vamos oferecer a quem se aventurar entre nós – dizem que serão 3 milhões de turistas nacionais e internacionais rodando por aqui – ao longo daqueles 30 dias que começam no início de junho? Treinamos taxistas? Arregimentamos voluntários? Estabelecemos um hotline nacional para o atendimento imediato de turistas em apuros – na língua deles? Alguém está ensaiando direito uma cerimônia de abertura bonita, bem concebida?

Tirando um ou outro superfaturamento seguido de atraso e seguido, por sua vez, de uma suplementação de verbas – o que até Pero Vaz de Caminha já sabia que ia acontecer -, e tirando uma devolução dos quartos de hotel reservados aqui e ali, e tirando algumas reformas pontuais realizados num e noutro aeroportos, o que fizemos para que a Copa do Mundo no Brasil fosse um evento inesquecível, um marcador em nossa história – como as Olimpíadas de Seul, em 1988, foram para a Coreia -, ou então uma demonstração internacional de nossa capacidade de organização e de entrega, e de nossa confiabilidade como país – como os Jogos de 2012 foram para a China?

Alguns países transformaram esse tipo de oportunidade para amalgamar a sociedade e gerar um momento de orgulho nacional. Nós, menos por pirraça do que por inação, estamos nos encaminhando para gerar um momento de vergonha nacional. O que poderia ser uma oportunidade incrível de consolidação de mudança da marca Brasil, gerando dividendos para todos nós, aqui dentro e lá fora, pode virar um fiasco e um desastre inacreditáveis. (Com direito a bis em 2016.) Mas talvez essa seja a única causa realmente capaz de unir todos os brasileiros – o sentimento de incompetência, a dor de cotovelo diante do fracasso que nós mesmos carpimos, uma espécie de vergonha alheia de nós mesmos.

A Copa e a Olimpíada sempre correram o risco de serem vistas, só para variar, como mais uma oportunidade para o assalto ao erário e para o locupletação imediata de alguns. Alguém lembra das contas do Panamericano do Rio em 2007? Pagamos várias vezes mais para ter um resultado medíocre. Reformamos duas vezes o Maracanã em menos de cinco anos! (Aliás, aquele poderia ser o slogan da administração pública brasileira. Nada nos define melhor.) No entanto, nem isso parece que conseguiremos alcançar com a Copa. Estamos simplesmente batendo cabeça. Parece que viramos as costas para o evento. Toda a sociedade. O pessoal da velha economia, da nova economia, os hipsters, os coxinhas, todo mundo. Como se não quiséssemos nos envolver, como se a Copa fosse finalmente uma notícia ruim, um embaraço, uma bomba relógio da qual preferíssemos guardar distância. O que também diz muito das expectativas que nós temos acerca do nosso próprio trabalho. Quem vai acreditar em nós quando nós mesmo não acreditamos, quando fazemos tudo para confirmar as profecias autorrealizáveis de tragédia que contam por aí a nosso respeito?

No final, além de alguns estádios de padrão Fifa (onde, tomara, os lugares marcados nos ingressos comecem a ser finalmente respeitados no país do “eu vi primeiro”), e de alguns aeroportos recauchutados, o que a Copa vai gerar? Que legado ela vai deixar ao Brasil? Não construímos hotéis, nem o trem bala Rio-São Paulo, nem metrôs e estacionamentos perto do estádios. O meu querido Beira Rio tem membranas translúcidas mas ainda não tem calçadas pavimentadas ao redor! É como se o Allianz Arena sumisse de Munique, na Alemanha, e se materializasse de repente na favela do Buraco Quente, em Porto Alegre, sobre a lama. Eis o ponto: nós não fizemos nada. Perdemos tempo. Perdemos a oportunidade. Ficamos parados. Por falta de planejamento, de organização, de tino realizador, de senso de responsabilidade, de capacidade de nos entendermos entre nós mesmos e coordenarmos esforços para um bem comum. Nossa incompetência de gerir essa Copa tem sido a nossa incompetência histórica de gerir a nós mesmos como sociedade.

Eis o que o espelho está nos mostrando: fazemos sempre o mínimo necessário, na última hora. Se colar, colou. Não temos capricho, nem orgulho de fazer bem feito. Que nos importa defender a honra ou preservar a reputação? Somos lenientes, operamos sempre pelo provisório e não pelo definitivo. Nos orientamos por qualquer nota, pelo assim já está bom. Procrastinamos, não somos previdentes, não gostamos de assumir compromissos. Afinal, somos bom de ginga, temos samba no pé, adoramos o improviso, podemos sempre sacar o jeitinho brasileiro do bolso.

Um dia talvez percebamos que, se fizéssemos as coisas direito, com planejamento, distribuindo e cobrando responsabilidades, nos organizando de modo eficiente, ganharíamos muito mais. (Ainda que alguns, que hoje lucram muito com a bagunça, fossem ganhar um pouco menos.) Assim pagaríamos menos taxas de urgência. Assim viveríamos menos sobressaltos. E sobrecarregaríamos menos as entidades de várias religiões com nossas preces de última hora – sempre desesperadas e arrependidas.

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terça-feira, 18 de fevereiro de 2014 Sem categoria | 11:12

Sobre o medo

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O medo é uma prisão mental cuja chave fica no bolso do prisioneiro.

O medo é uma prisão mental cuja chave fica no bolso do prisioneiro.

Medo de não vender e falir.

Medo de vender e não conseguir entregar.

Medo de não ser chamado.
Medo de ser chamado e decepcionar.

Medo de sair do lugar – e perder o lugar.
Medo de nunca sair do lugar.

Medo de que o telefone toque – e a notícia seja ruim.
Medo de que o telefone deixe de tocar.

Medo de dizer a verdade e ofender irreversivelmente.
Medo de reprimir a verdade e criar um monstro dentro de mim.

Medo de dar demais e desvirtuar o outro na sua relação comigo.
Medo de dar pouco e virar um sovina, um austero, um sujeito árido e frio e só.

Medo de prometer e não cumprir.
Medo do compromisso.
Medo de não me comprometer com nada, nunca – e virar um tipo pusilânime.

Medo de morrer hoje. Ou amanhã de manhã.
Medo de viver mais tempo do que a minha condição de viver bem.

Medo da violência que campeia ali na esquina, dizimando integridades cada vez mais perto de mim.
Medo de sentir tanto medo, de abraçar a paranoia, de me deixar paralisar pela metade eternamente vazia do copo. (Não importa quando o enchamos, torrencialmente às vezes, a porra desse copo sempre vai ter uma metade vazia zombando da gente.)

Medo de ficar sem dinheiro.
Medo de virar um escravo do dinheiro.

Medo de ficar sozinho.
Medo de estar acompanhado e ainda assim me sentindo infeliz, e gerando infelicidade. Há um lugar dentro da gente onde ninguém no alcança. Nem nós mesmos.

E o que é o medo? Uma prisão mental cuja chave fica no bolso do prisioneiro. Uma prisão mental em que carcereiro e encarcerado são a mesma pessoa.

 

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segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014 Sem categoria | 09:13

O perfeito idiota de classe média brasileiro – parte 2

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A pobreza no Brasil não é uma circunstância, uma situação conjuntural a que todos estamos expostos - é uma condição estrutural que rotula e afasta milhões de pessoas, consideradas para sempre subcidadãs. O PICMB morre de medo disso. E adora rir disso.

A pobreza no Brasil não é uma circunstância, uma situação conjuntural a que todos estamos expostos – é uma condição estrutural que rotula e afasta milhões de pessoas, consideradas para sempre subcidadãs. O PICMB morre de medo disso. E adora rir disso.

O texto de maior sucesso nos cinco anos de vida do Manual viralizou semana passada – O perfeito idiota de classe média brasileiro.

O número de leituras foi de pouco mais de 1 000 (um belo número para os padrões do Manual) para quase 9 000 no espaço de alguns dias. E continua subindo. Nada mal para um blog independente. O detalhe é que essa é a segunda curva de um texto que foi publicado originalmente em 9 dezembro. Impossível precisar o que detonou essa ignição ocorrida de repente, dois meses depois. Coisas da internet.

Acho que o texto tocou num ponto importante – um padrão de comportamento que transforma muitos de nós em seres com um cartão de crédito no bolso e nenhuma ideia na cabeça. Aterrissei essa atitude na classe média – porque é ali, nesse terreno largo, em que o poder aquisitivo nem sempre é construído par e passo com a instrução, que ela pode ser encontrada com mais clareza e fartura. Mas é claro que esse comportamento acomete pessoas em outras camadas sociais. Ele pode ser visto na aspiração dos pobres e também no descaso dos ricos brasileiros.

O PICMB se traduz numa pessoa mimada, indolente, incivilizada, pouco cidadã. Que se escuda atrás de marcas e de produtos caros – porque, de resto, tem pouca coisa a oferecer. É um praticante e uma vítima da reificação – o processo de coisificação das pessoas, dos sentimentos, dos relacionamentos. O PICMB é brega no uso do dinheiro. E cafona no que pensa e no que diz – porque não se preparou para exercer da melhor maneira as suas conquistas financeiras. Acha que não precisa fazê-lo. Ele está interessado em ter, não em ser. Ou: ele só considera que é na medida em que tem.

Há outros dois aspectos que ajudam bem a caracterizar o PICMB – que, perceba, é muito mais uma função do que uma estrutura, muito mais um software do que um hardware, muito mais um sistema ético do que um determinado grupo de pessoas.

O primeiro deles: o medo bizarro da classe média brasileira de parecer pobre.

E o modo mais direto de não parecer pobre, de afirmar ou de fingir riqueza, é pagar caro. A visão que nós temos de um cara rico, no Brasil, não é a de um cara que trabalha e que economiza – mas de alguém opulento e perdulário. Por isso os preços aumentam à nossa volta – e o PICMB acha bonito pagar por eles. Pagar menos é erodir valor. Pagar caro, ao contrário, deixa todo mundo ver que você não é pobre. O tipo de consumismo que nutrimos entre nós tem esse viés: as coisas tem que ser caras. O uso grosseiro de marcas famosas vem daí – elas não são nada além de uma sinalização pouco sutil para todos os outros de que você tem dinheiro para torrar naquilo. (Mesmo os produtos comprados em liquidações, nos outlets de Orlando, que lotamos com nossa voracidade vazia, não se despem dessa função, ao gritarem: “eu estive em Orlando, você não”. A exclusividade é uma forma de segregação social e econômica que nós adoramos praticar.) Não raro, o único valor de um produto é esse: ser caro. Ele nem é tão legal, mas você usa porque todo mundo sabe que ele custa os olhos da cara. Ninguém acha que você é um tremendo pato agindo desse jeito – todo mundo acha você que é bacana. Nós devotamos ao PICMB uma admiração (sempre banhada em veneno) que lhe faz vibrar por dentro.

O PICMB acha que reclamar dos preços, ou discuti-los, ou pechinchar, ou procurar pelas melhores ofertas, é coisa de pobre. E nós temos horror a isso – “pobrismo”. Trata-se, obviamente, de um trauma terceiro-mundista, de quem foi pobre por muito tempo, e de quem ainda convive muito de perto com a pobreza. Escandinavos, holandeses, belgas e suíços, por exemplo, não tem essa dicotomia instalada dentro de si. Por isso se dão ao luxo de dar mais valor ao seu dinheiro e de não enxergar sentido na ostentação. Nós, ao contrário, respiramos essa dicotomia. Nosso jeito de lidar com ela é ampliar, entre nós, o contraste entre quem tem e quem não tem, ao invés de tentar incluir todo mundo para que mais pessoas possam ter. Vivemos para mostrar. Para agredir o outro com aquilo que logramos adquirir. Por isso, para o PICMB, a regra é comprar sem olhar. Essa irresponsabilidade com o dinheiro, essa falta de amor à economia, nos define. Os americanos, para não irmos muito longe, respeitam muito cada dólar que tem na carteira. Por isso o dólar é valorizado. A valorização cambial de uma moeda começa na valorização que os usuários fazem dela individualmente, dentro do seu próprio bolso. Como os americanos, nós elegemos o dinheiro como um deus – só que um deus que precisa ser imolado diariamente no fio do cartão de crédito internacional com limite estourado.

Esse pudor de parecer mesquinho é o que permite que os estacionamentos e as sobremesas, para citar dois preços que inflacionaram barbaramente nos últimos anos, aumentem descaradamente numa cidade como São Paulo. A gente paga. Então a primeira hora do valet em qualquer lugar, de 8 ou 10 reais, passou, num par de anos, para 20 ou 25 reais. Porque a gente paga. Por isso um taça minúscula de qualquer coisa doce após uma refeição passou de 10 ou 12 reais, para 25 reais em qualquer restaurante bem posicionado na cidade. Porque a gente paga. A gente não reclama – porque regatear preço é coisa de pobre. Por isso o governo aumenta seus gastos e a nossa carga tributária todo ano e tudo bem: a gente continua pagando. As tungadas vem de todo lugar – do IPTU ao serviço de controle da emissão de gases do seu carro (uma piada de humor sombrio aplicada aos paulistanos todo ano). A gente paga. A gente assente. Enquanto isso nos separar daquelas pessoas que não podem pagar, continuaremos pagando – porque isso nos faz sentir bem.

O outro aspecto que ajuda a caracterizar o comportamento do PICMB é um individualismo atroz, que embute um total descaso pelo outro e que obstaculiza a construção de uma Nação com N maiúsculo sobre esse país com p minúsculo.

Trata-se de tentar sempre garantir privilégios individuais imediatos ao invés de crescer como sociedade a médio prazo. A magistrada que bloqueou recentemente, no bairro do Humaitá, no Rio, um trecho de calçada em frente à sua casa, para poder manobrar com o seu carro, é a cara desse Brasil. Somos um país de posseiros. O país da apropriação indébita. Ao invés da soma dos interesses privados gerarem o bem público – afinal, é do interesse comum, de cada um de nós, que seja bom para todos –, a gente parte para o cada um por si e para o quem pode mais chora menos. Assim não construímos sistemas – porque sistemas dependem de que cada parte funcione por si só mas também para o todo. A gente não liga para o todo – temos a ilusão de que se resolvermos o nosso está bom. (Enquanto eu estiver bem dentro do meu carro, que se exploda o metrô!) Adoramos prerrogativas, vantagens especiais, contarmos com mais direitos do que os outros. Somos fascinados por camarotes, por bocas livres, por crachás que deem acesso a lugares onde os outros não chegam. Eis o ponto: nada é mais distante, insignificante e sem valor para um brasileiro do que outro brasileiro. Daí a vida valer tão pouco por aqui. O outro não vale nada. Amarra o ladrão no poste e lincha. Problema dele, não meu. O PICMB cuida de si e dos seus – e cada um que cuide de si. Não existe solidariedade no Brasil. Nem o pensamento coletivo, o sentimento de conjunto. Somos um empilhamento mal combinado de milhões de indivíduos que só querem saber de si mesmos. O PICMB é um fruto e um arauto disso.

Daí utilizarmos o acostamento descaradamente. Trata-se de um espaço coletivo – que o PICMB transforma em espaço particular, à revelia dos demais. Daí a luz amarela do semáforo no Brasil ser um sinal para avançar, que ainda dá tempo – enquanto no Japão, por exemplo, é um sinal para parar, que não dá mais tempo. Nada traduz melhor nossa sanha por avançar sobre o outro, sobre o espaço do outro, sobre o tempo do outro. Parar no amarelo significaria oferecer a sua contribuição individual, em nome da coletividade, para que o sistema funcione para todos. Uma coisa que o PICMB prefere morrer antes a ter de fazer.

Por fim, um teste simples para identificar outras atitudes que definem o PICMB: liste as coisas que você teria que fazer se saísse do Brasil hoje para morar em Berlim ou em Toronto ou em Sidney. Lavar a própria roupa, arrumar a própria casa. Usar o transporte público. Respeitar a faixa de pedestres, tanto a pé quanto atrás de um volante. Esperar a sua vez. Compreender que as leis são feitas para todos, inclusive para você. Aceitar que todos os cidadãos tem os mesmos direitos e os mesmo deveres – não há cidadãos de primeira classe e excluídos. Não oferecer mimos que possam ser confundidos com propina. Não manter um caixa 2 que lhe permita burlar o fisco. Entender que a coisa pública é de todos – e não uma terra de ninguém à sua disposição para fincar o garfo. Ser honesto, ser justo, ser pontual. Se tudo isso lhe for intragável, não tenha dúvida: você está se transformando num PICMB. Reaja.

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segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014 Sem categoria | 10:02

É preciso ter um propósito – ou a vida fica muito chata

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Quem tem uma causa está sempre trabalhando para si mesmo - até quando trabalha para os outros

Quem tem uma causa está sempre trabalhando para si mesmo – até quando trabalha para os outros

Recebo a seguinte mensagem de uma leitora do Manual, por obra deste artigo que publiquei esses dias:

“Querido Adriano,

Queria muito poder abrir mão desse componente que apesar de não ser essencial, parece: a grana. Pode parecer contraditório mas a angústia, o frio na barriga e o medo do incerto nessa altura do campeonato são maiores do que os sapões engolidos todo santo dia.

Vamos à minha história, que carinhosamente chamo de ‘parece, mas não é’. E desculpe se volto muito ao passado, mas ele explica grande parte das minhas inseguranças no mundo profissional.

Mãe: trabalhou por 35 anos na mesma empresa, onde começou como office-girl e se aposentou como gerente financeira, muito respeitada. Foi a responsável pela provisão em casa. Criou as duas filhas com limitações, mas sempre buscando o melhor. Leia-se: estudamos sempre em escolas particulares, mas não íamos à Disney todo ano como nossas coleguinhas de sala.

Pai: sempre fez de tudo um pouco, de maneira bem instável, é verdade, mas sempre se desdobrando para também dar o melhor às duas filhas. Trabalhou em editoras como representante de vendas, em corretora de seguros, em banco e até arriscou por duas vezes um negócio próprio mas nunca foi para a frente. Minha mãe sempre dizia que ele não nasceu para ter chefe. Meu pai parou de trabalhar antes da minha mãe e ficava em casa conosco.

Isso explica muito minha insegurança no mundo do empreendedorismo. Se tenho uma família a sustentar e um padrão de conforto a manter, preciso de estabilidade, não posso me aventurar.

Me formei em faculdade de primeira linha na minha área (Marketing), fiz pós-graduação, e sempre trabalhei em multinacionais que me deram um belo currículo. Mas além do currículo, essas mesmas empresas me deram experiência e me fizeram enxergar ao longo do caminho que nada vale a pena no mundo corporativo. Não vale a pena se sacrificar, pois no final do ano, sua avaliação de performance será medíocre comparada com o colega que ainda acha que beijar as mãos do chefe vale a pena. Não vale a pena vender mais, quem está ganhando nesse jogo é a pessoa jurídica e os acionistas dela e não você. Não vale a pena ser respeitado, ser referência pois tudo é efêmero nesse mundo. Enfim, poderia tecer uma lista gigantesca de todos os inconvenientes do mundo corporativo. Mas você já fez isso de maneira brilhante no artigo.

 Hoje sou uma gerente, especialista pois não tenho equipe, o que é um dos motivos da minha frustração. Pareço ter um cargo importante, em uma multinacional importante, com um salário bem adequado a essa importância toda e tenho amigos que me consideram uma profissional de moderado sucesso.

Como eu vejo: uma especialista que entende de tudo um pouco na minha área, que só é gerente por que o título do cargo é esse, cujo salário é uma prisão e que está cada vez mais frustrada, faz cada vez menos e cada vez pior as tarefas do dia a dia, empurrando mesmo com a barriga. Faço o que deve ser feito. Nem um passo a mais. Não gosto do que faço e, a bem da verdade, não faço muita coisa pois as verbas são cada vez menores.

Minha prisão:

– Um bom salário: que chega a ser o triplo do salário do meu marido e que sustenta grande parte do nosso padrão de vida e me dá a segurança de que consigo criar bem meu filho

– Um chefe que fica em outro país: o que me dá a tranquilidade de não ter alguém na minha cola, me cobrando o tempo todo e me avaliando a todo minuto

– Flexibilidade: entro a hora que quero, saio a hora que quero, posso trabalhar em casa. Levar e buscar meu filho na escola, ficar com ele em casa quando ele está doente.

Meu dilema:

Por que largar um emprego dos sonhos como esse (é o que sempre escuto) e partir para um negócio próprio? Não seria melhor manter o status quo e garantir um bom futuro para meu filho? Por que largar um emprego em que tenho vantagens que não passam de sonho para outras pessoas?

Tenho proposta para ir para outra empresa. Durante um tempo, a euforia do aprendizado me faria crer que tomei a decisão certa, quando na verdade só estaria mudando de CNPJ e quiçá para uma situação pior, sem as vantagens que tenho hoje. Mudar de lado? Ir para o lado do fornecedor, da agência, da consultoria, seria oportunidade de aprender coisas novas e talvez a euforia durasse mais tempo, mas no fim das contas, só demoraria um pouco mais para desanimar de novo (sem contar as desvantagens da falta de horário, do sacrifício, das mãos a serem beijadas – afinal tudo isso existe do outro lado também.)

Sim, a grana é importante para mim agora, mas não aguento mais a situação. Além disso, não faço ideia do que fazer, de uma alternativa, do que gosto, de algo em que sou muito boa, de algo que as pessoas falem que eu deveria ganhar dinheiro com aquilo.

Incrível como a história influencia nosso destino e nossas decisões. Sou aquela mesma alma do meu pai que quer se livrar do mundo corporativo, aprisionada na segurança e na estabilidade que minha mãe transmitiu serem tão importantes.

E enquanto escrevia esse texto me dei conta de que tenho um tesouro nas mãos! Tempo. Me dei conta de que preciso utilizar essa flexibilidade e tempo livre que tenho e canalizar energias para:

1.          Encontrar o que me faz feliz – o caminho do autoconhecimento, como você muito bem coloca;

2.         Investir nessa felicidade enquanto tenho a segurança e estabilidade que a corporação me oferece, por mais injusto que isso possa parecer com a empresa. Mas, no final das contas, o que é justo no jogo corporativo, não é mesmo?

Obrigada por me encaminhar a essa reflexão. E, mais uma vez, desculpe o tamanho do desabafo. Abs!”

Trata-se, como se vê, da reflexão de uma executiva experiente e bem formada. Uma reflexão que fala com a minha vida e com a sua. E que, portanto, nos permite pensar juntos. Coloco aqui a minha análise. E, como sempre, você está convidado para colocar a sua, OK?

Cara leitora,

Há dois pontos claros no seu depoimento. Leia mais »

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